{"id":1521,"date":"2025-05-17T11:14:07","date_gmt":"2025-05-17T11:14:07","guid":{"rendered":"https:\/\/irrelevanciacronica.pt\/?p=1521"},"modified":"2025-05-22T10:15:44","modified_gmt":"2025-05-22T10:15:44","slug":"comboiadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/irrelevanciacronica.pt\/?p=1521","title":{"rendered":"Comboiadas"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"1521\" class=\"elementor elementor-1521\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-67bd0ef4 e-con-full e-flex e-con e-parent\" data-id=\"67bd0ef4\" data-element_type=\"container\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-3189b0df elementor-widget elementor-widget-image\" data-id=\"3189b0df\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"image.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"2479\" height=\"1653\" src=\"https:\/\/irrelevanciacronica.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image0-39.png\" class=\"attachment-full size-full wp-image-1530\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/irrelevanciacronica.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image0-39.png 2479w, https:\/\/irrelevanciacronica.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image0-39-300x200.png 300w, https:\/\/irrelevanciacronica.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image0-39-1024x683.png 1024w, https:\/\/irrelevanciacronica.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image0-39-768x512.png 768w, https:\/\/irrelevanciacronica.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image0-39-1536x1024.png 1536w, https:\/\/irrelevanciacronica.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image0-39-2048x1366.png 2048w\" sizes=\"(max-width: 2479px) 100vw, 2479px\" \/>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-4983c877 e-flex e-con-boxed e-con e-parent\" data-id=\"4983c877\" data-element_type=\"container\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"e-con-inner\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-3b0e26c4 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"3b0e26c4\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t<p>17\/05\/2025<\/p>\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-69e7db8e elementor-widget elementor-widget-heading\" data-id=\"69e7db8e\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"heading.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t<h1 class=\"elementor-heading-title elementor-size-default\">Comboiadas<\/h1>\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-7b2a11d3 elementor-widget__width-initial elementor-drop-cap-yes elementor-drop-cap-view-default elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"7b2a11d3\" data-element_type=\"widget\" data-settings=\"{&quot;drop_cap&quot;:&quot;yes&quot;}\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t<p>O <span style=\"font-weight: 400;\">comboio tinha partido h\u00e1 dez minutos, sentido \u201cCais Sodr\u00e9\u201d. Encontrava-me de p\u00e9, num canto, perto da \u00faltima porta. O meu olhar desdobrava-se entre as letras de um livro e um casal jovem \u00e0 minha esquerda. N\u00e3o que a leitura de \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Quincas Borba<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201d n\u00e3o fosse apelativa, at\u00e9 porque desde que li \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">As mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201d fiquei apaixonado pela escrita de Machado de Assis. O problema \u00e9 que os mi\u00fados ao meu lado n\u00e3o paravam de se amassar \u00e0 grande e \u00e0 francesa <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014 <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">juro, leitor; nunca vi tanta l\u00edngua para t\u00e3o pouca boca.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o me leve a mal, gosto de uma boa troca de beijos como qualquer alma saud\u00e1vel e esperta, s\u00f3 n\u00e3o gosto quando essa troca de xoxos \u00e9 feita a favor do meu bra\u00e7o esquerdo.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Passava das seis da tarde, hora de ponta. Tinha decidido ficar de p\u00e9 para estar \u00e0 vontade e dar lugar a pessoas mais velhas e cansadas. Erro crasso. Arrependi-me mal senti o bra\u00e7o do adolescente a raspar-me enquanto \u2018afalfava\u2019 o enorme gl\u00fateo da rapariga <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> n\u00e3o julgue, era imposs\u00edvel n\u00e3o reparar; nem uma toupeira conseguiria n\u00e3o atentar o tamanho do pernil.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cDigo-lhes ou n\u00e3o?\u201d, era o que me passava pela cabe\u00e7a ao mesmo tempo que fingia ler. Comecei a arranjar motivos para n\u00e3o dizer nada: O bra\u00e7o do jovem n\u00e3o abalroa constantemente, vai e vem com os solavancos da carruagem: ele n\u00e3o tem culpa. A carruagem est\u00e1 cheia: \u00e9 normal que haja encostos. Naquela idade, as hormonas n\u00e3o perdoam: tamb\u00e9m passei por isso. J\u00e1 s\u00f3 faltam sete paragens: eu aguento.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Retomei a leitura. A a\u00e7\u00e3o tinha acalmado. O jovem, ainda agarrado \u00e0 dama, conversava com outros tr\u00eas amigos presentes na carruagem (A gangue do louva-a-deus, do porco-espinho e do sardinha): \u201cBaza dar um giro na praia?\u201d, dizia o louva-a-deus, com os seus bra\u00e7os mais finos que uma alface a esfor\u00e7arem-se pra segurar um telem\u00f3vel. <\/span><span style=\"font-style: inherit; background-color: #fbfbfb;\">\u201cNepia, j\u00e1 n\u00e3o d\u00e1 tempo. Bora para casa dela. A tua m\u00e3e tem lanche ou n\u00e3o?\u201d, respondeu o rapaz com quem me ro\u00e7ava <span style=\"font-weight: 400;\">\u2014 o macaco l\u00edder<\/span>. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; background-color: #fbfbfb;\">\u201cPorque \u00e9 que n\u00e3o te vais encostar a eles e v\u00e3o todos juntos lanchar para a praia?\u201d <\/span><span style=\"font-style: inherit; background-color: #fbfbfb;\">\u2014 era o que teria dito, se n\u00e3o me faltasse peito<\/span><span style=\"font-style: inherit; background-color: #fbfbfb;\">.&nbsp;<\/span><span style=\"font-style: inherit; background-color: #fbfbfb;\">\u201cOnde \u00e9 que ela vive?\u201d, <\/span><span style=\"font-style: inherit; background-color: #fbfbfb;\">perguntou o porco-espinho, que era t\u00e3o baixo que se n\u00e3o fosse pelo seu cabelo espigado a contribuir com uns bons 4 cent\u00edmetros, ningu\u00e9m o via, pelo menos sem o auxilio de um microsc\u00f3pio. \u201cPicoas\u201d, respondeu-lhe a mulherzinha, prestes a telefonar \u00e0 m\u00e3e.&nbsp; Dei por mim a ler sem me lembrar do que li; restitu\u00ed o foco e regressei ao in\u00edcio do cap\u00edtulo.<\/span><\/p>\n<p>(&#8220;E o sardinha?&#8221;, pergunta-se. O sardinha era t\u00e3o calado e inseguro que o seu corpo espada\u00fado limitava-se a seguir o cardume ecl\u00e9tico do macaco-l\u00edder, sem opinar nem questionar.)<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em Oeiras entrou uma multid\u00e3o e o caldo tornou a balan\u00e7ar. Os jovens ajustaram-se e agora tinha a rapariga virada na minha dire\u00e7\u00e3o com o rapaz a abra\u00e7\u00e1-la por detr\u00e1s. Tentei focar-me nas palavras, mas no arranque do comboio, o seio direito da jovem invadiu a p\u00e1gina n\u00famero 22 do meu livro. Tinha um peito juvenil interessado em Quincas Borba.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ajeitei o livro para a direita e virei costas \u00e0 mi\u00fada e \u00e0 sua tetinha curiosa. Fiquei orgulhoso da atitude, muitos rebarbados teriam aproveitado o ensejo. Quando achei que o perigo tinha passado, eis que sinto certas n\u00e1degas monstruosas a atracarem-se \u00e0s minhas pernas, assim como, as suas omoplatas a cumprimentarem-me a coluna. Olhei para tr\u00e1s, estavam novamente a polir os dentes um do outro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A sua plateia (os amigos) observava com tanta aten\u00e7\u00e3o que s\u00f3 lhes faltava tirarem notas. O pior de tudo \u00e9 que j\u00e1 me sentia parte do espet\u00e1culo. Se aquilo fosse uma cena de sexo escaldante, a rapariga era a rapariga, o rapaz era o rapaz, e eu era a cama. Usado para amparar movimentos bruscos e prover-lhes de todo o conforto durante a calorosa c\u00f3pula.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A situa\u00e7\u00e3o tornou-se insuport\u00e1vel <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> n\u00e3o que antes estivesse a ser agrad\u00e1vel. O caldo entornou-se. Num ato instintivo de coragem, voltei a face e num tom alto e imperativo disse: \u201cImportam-se!\u201d. Sil\u00eancio. As minhas costas foram rapidamente desocupadas. Senti-me adulto, apesar de j\u00e1 o ser.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cConsegui!\u201d <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> surgiu-me o entusiasmo ainda misturado com a altivez provocada pelo momento. Por\u00e9m, o feito foi curto. Ouvi a voz da rapariga: \u201cEst\u00e1 ciumento, \u00e9?\u201d. Os amigos riram-se. Ignorei. O rapaz seguiu a deixa: \u201cJ\u00e1 devia estar a ficar teso\u201d. Mais risos. Fingi n\u00e3o ter ouvido; apesar da minha face se avermelhar \u00e0 mesma velocidade que o Est\u00e1dio da Luz num dia de jogo. \u201cPorque \u00e9 que foste falar? N\u00e3o sabes que os mi\u00fados desta idade adoram conflitos, seu est\u00fapido?\u201d <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> raciocinava, enquanto voltava para o in\u00edcio do cap\u00edtulo VI, pela quinta vez. \u201cPor isso \u00e9 que se virou de costas, para esconder a \u2018tusa\u2019\u201d <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> disse o rapaz, enquanto a rapariga voltava a embater com o seu traseiro imenso nas minhas coxas. O riso dos companheiros atingiu o pin\u00e1culo. Para eles, tratava-se de pura com\u00e9dia. Para mim, uma das maiores humilha\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&nbsp;Depois do confronto, os olhares da vizinhan\u00e7a tornaram-se ass\u00edduos, mas n\u00e3o passaram disso; a situa\u00e7\u00e3o parece n\u00e3o ter sido suficiente para lhes suscitar a intromiss\u00e3o. N\u00e3o julgo, faria o mesmo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os libertinos voltaram ao ativo, mas desta vez, punham propositadamente \u00eanfase em cada achega \u00e0 minha dorsal. \u201cSacanas dos putos\u201d, esta era a frase que servia de cabe\u00e7alho dos meus pensamentos. Por essa altura, orquestrava um plano para lhes ensinar uma li\u00e7\u00e3o, ou pelo menos castig\u00e1-los. Tinha de ser r\u00e1pido, saiamos em tr\u00eas paragens. A raiva insistia na abordagem agressiva: virar-me, espetar um soquete a cada um dos rapazes, insultar a rapariga, sair na pr\u00f3xima esta\u00e7\u00e3o. Mas era apenas fic\u00e7\u00e3o, uma cena de filme de a\u00e7\u00e3o em que o protagonista se afirma como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">badass. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">Nunca seria capaz, n\u00e3o sou<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\"> badass <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">e muito menos protagonista. Nem a banalidade, nem a dec\u00eancia do meu ser o permitiriam.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Pensei em cham\u00e1-los \u00e0 raz\u00e3o, faz\u00ea-los ver que me estavam a incomodar, apelar \u00e0 empatia. S\u00f3 que n\u00e3o ia servir de nada, pareceria um pai a ralhar com os seus filhos, um adulto desautorizado perante jovens desafiadores; quanto muito dar-lhes-ia mais gozo o desrespeito.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Porque n\u00e3o simplesmente mudar de s\u00edtio? Deve estar a interrogar-se, ao mesmo tempo que me chama de burro. Meramente porque, ademais da carruagem apinhada n\u00e3o oferecer buraco onde me enfiar, isso seria assumir derrota, admitir que qualquer pirralho faz de mim gato-sapato. Nem pensar.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O contacto era constante e nada confort\u00e1vel. O rabo dela era t\u00e3o grande que quase me podia sentar nele e ainda sobrar espa\u00e7o para mandar construir um condom\u00ednio com piscina. Ele atirou para o ar: \u201cGostas?\u201d. Mais uma dose de gargalhadas, mas nem prestei interesse; ao ouvir aquela provoca\u00e7\u00e3o, fez-se luz na minha cabe\u00e7a. \u201cE se alinhasse na brincadeira dos bandalhos? E se fingisse ser um pervertido? Esfregar-me neles como um c\u00e3o num relvado.\u201d A luz apagou-se no instante seguinte. N\u00e3o ia fazer isso. Seria nojento, sou um homem de princ\u00edpios, com valores; jamais faria uma coisa dessas, por mais que merecessem. Al\u00e9m disso, n\u00e3o deixam de ser mi\u00fados; o mais prov\u00e1vel seria acabar algemado ou agredido por algum homem honrado <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014 sortudo como sou, os poucos que existem estariam todos naquela carruagem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Prestes a chegar \u00e0 pen\u00faltima esta\u00e7\u00e3o, pelo canto do olho esquerdo, averiguei o casal desavergonhado. Reparei que o telem\u00f3vel do safado era demasiado grande para o seu bolso das cal\u00e7as; mais de metade do dispositivo estava pendurado no contorno da algibeira, como se fosse uma cria de passarinho prestes a realizar o primeiro voo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&nbsp;\u201cE se eu lhe roubasse o telem\u00f3vel? N\u00e3o h\u00e1 nada mais sagrado para um adolescente do que o seu telem\u00f3vel. Seria esperar at\u00e9 ao \u00faltimo segundo, pegar no telem\u00f3vel e sair.\u201d Surgiram-me as contrariedades <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> \u201cEstaria a cometer um crime; um delito justo e moralmente contorn\u00e1vel, \u00e9 um facto; mas n\u00e3o deixa de ser um crime\u201d.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Virei-me de lado para o casal, sem conseguir evitar esfregar o quadric\u00edpite na culatra astron\u00f3mica da crian\u00e7a. Comecei a ficar nervoso. Escorria-me suor da testa. A minha cabe\u00e7a comandava os meus olhos numa sequ\u00eancia cinematogr\u00e1fica entre o livro, o telem\u00f3vel do rapaz, o nome da esta\u00e7\u00e3o e a porta. Formou-se um loop. O comboio iniciou a travagem. Tudo a postos, era \u201cagora ou nunca\u201d.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Avancei para a porta. Os mi\u00fados sorriam com desd\u00e9m. Pausei ao lado do jovem importuno, fixei-o nos olhos e mantive a cara s\u00e9ria. O seu sorriso desaparecia \u00e0 medida que o medo o consumia, embora se notasse uma tentativa de colocar uma postura valente. Inclinei-me devagar, vagaroso o suficiente para me tornar amea\u00e7ador, e, com cuidado, sussurrei-lhe ao ouvido da maneira mais assustadora que consegui: \u201cVais morrer\u201d. A sua express\u00e3o transformou-se num misto de confus\u00e3o, descren\u00e7a e medo. Afastei-me. Sem sofrer nenhum contra-ataque inesperado, sa\u00ed do comboio; nem lento nem r\u00e1pido, sempre de olhar pregado no rapazola. O comboio acelerou. Fiquei especado a v\u00ea-lo partir como um man\u00edaco. Partiu.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Olhei em volta. Dirigi-me ao banco da esta\u00e7\u00e3o, sentei-me, abri o livro na p\u00e1gina em que o deixei e segui com a leitura (N\u00e3o gosto de deixar cap\u00edtulos a meio). Surgiu uma das grandes frases do livro: \u201c&#8230;Ao vencido \u00f3dio ou compaix\u00e3o; ao vencedor, as batatas\u2026\u201d <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014 <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Sorri. Terminei o cap\u00edtulo. Mais uma vez, olhei em redor: nada, n\u00e3o se via ningu\u00e9m. Fechei o livro; levantei-me; pousei o telem\u00f3vel do fedelho no banco; e passeei at\u00e9 ao \u201cCais Sodr\u00e9\u201d.<\/span><\/p>\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>17\/05\/2025 Comboiadas O comboio tinha partido h\u00e1 dez minutos, sentido \u201cCais Sodr\u00e9\u201d. Encontrava-me de p\u00e9, num canto, perto da \u00faltima porta. O meu olhar desdobrava-se entre as letras de um livro e um casal jovem \u00e0 minha esquerda. N\u00e3o que a leitura de \u201cQuincas Borba\u201d n\u00e3o fosse apelativa, at\u00e9 porque desde que li \u201cAs mem\u00f3rias [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1530,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1521","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-uncategorized"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/irrelevanciacronica.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1521","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/irrelevanciacronica.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/irrelevanciacronica.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/irrelevanciacronica.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/irrelevanciacronica.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1521"}],"version-history":[{"count":19,"href":"https:\/\/irrelevanciacronica.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1521\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1544,"href":"https:\/\/irrelevanciacronica.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1521\/revisions\/1544"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/irrelevanciacronica.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1530"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/irrelevanciacronica.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1521"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/irrelevanciacronica.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1521"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/irrelevanciacronica.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1521"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}