Irrelevância Crónica

04/10/2025

Artist-25

Depois de alguma pesquisa na rede social Instagram notei que anda aí uma nova epidemia: A gripe das artes. A gripe em si, não é das piores, não se preocupe. Os sintomas passam pela adição da palavra ‘Artista’ em tons de azul ao seu perfil de Instagram e, em casos mais graves, pela eventual abertura de um Patreon. Já as causas são variadas, podendo incluir a criação de um podcast; o lançamento de uma música, vlog ou clip de stand-up; um ego muito pequenino; entre outros.

Este vírus já existe há algum tempo, mas tem vindo a multiplicar-se a uma velocidade estrondosa. Antigamente, as pessoas eram cantoras, escritoras, comediantes, apresentadoras, arquitetas, médicas ou dançarinas do varão. Agora são ‘Artistas’. 

O ‘Artista’ passou de ser um título atribuído por um povo a personalidades que através da sua arte se tornaram marcantes para humanidade, para ser um um título auto-atribuído no instagram por qualquer indivíduo que publique POV’s no beliche da casa dos pais. 

Acho que faz todo o sentido. Artista é quem cria. Principalmente quando a criação é um vlog no banho turco. Ignorantes foram os antepassados que se esforçaram tanto a tentar representar o mundo nas suas obras, quando lhes bastava criar uma conta de Instagram e postar com consistência.

 “A Arte não representa o visível, a Arte torna visível”. O que hoje em dia faz todo o sentido porque se não fossem os artistas contemporâneos, não conseguiria visualizar publicidade à Sport Tv.

Não me interprete mal, não digo que não exista arte nas redes sociais, há realmente artistas que utilizam as plataformas digitais para aumentar o alcance das suas obras. Estou só a dizer que arte para mim é mais do que três amigos a conversar sobre tudo e sobretudo sobre nada, num podcast “sem limites”. 

O meu avô era pintor, pintou quadros lindíssimos. A minha mãe contou-me que quando as pessoas lhe chamavam de artista ele dizia “Não sou artista nenhum, artista é quem cria. Eu não criei nada, só copiei aquilo que vi”. Acho que é isto. O meu avô era pintor, apenas pintor, não precisava de mais. Artista é uma condecoração demasiado forte para se tornar num título auto-atribuído. Não basta ter estudado artes, ou trabalhar com as artes, ou fazer anúncios para a Super Bock, é preciso ser revolucionário, único e reconhecido naturalmente pelo público.

Agora todos são artistas, a palavra banalizou-se e propagou-se da mesma maneira que os smash burgers a uma velocidade estúpida e sem razão nenhuma. Desta forma, o verdadeiro artista perde o valor. O Picasso e o George Carlin, neste momento, estão no mesmo saco que uma influencer que criou um podcast ou um criador de conteúdo que tem uma marca de t-shirts.

Isto tudo para dizer que considero de parvas a grande maioria das pessoas que se auto-intitulam de artistas. Espera-se mais de um artista do que passar música num sunset ou exibir tatuagens minimalistas no braço esquerdo. Um verdadeiro artista mostra coragem e sinceridade de uma forma singular. Um bom exemplo, são as pessoas que escrevem textos humorísticos sem interesse, semanalmente, num site personalizado, para um público constituído maioritariamente por familiares,amigos e uma vizinha — essas pessoas sim, são verdadeiras artistas.

Estrague o dia a mais alguém.
Partilhe aqui:
Scroll to Top