Irrelevância Crónica

28/09/2025

O desafio mais difícil do mundo

Sempre achei que perder alguém próximo seria das coisas mais difíceis que teria de enfrentar na vida, contudo, estou há dois meses a tentar organizar uma viagem com dez amigos e a dificuldade trespassou todos os limites. Devo dizer que organizar uma viagem com 10 gajos é tão difícil que, em caso de sucesso, essa informação deveria ser colocada no currículo. É mais provável aprender a falar árabe em dois meses do que conseguir colocar dez amigos dentro de um avião. Sinceramente, concretizar uma viagem só de homens é tão difícil que deveria ser o desafio final do Super Mario, em vez de lutar com o Bowser, o Mário organizava uma viagem para ele e mais 9 tartarugas para o sudeste asiático. 

A primeira questão é o interesse. É importante estar ciente de que num grupo de dez, apesar de todos terem votado a favor de participar na viagem, apenas três ou quatro estão realmente empenhados em organizá-la, os outros 6 ou 7 estão à espera que organizem por eles. 

Dos três interessados temos o impulsionador, o gajo que pesquisa airbnb’s, pesquisa voos, compara preços, identifica todos diariamente no grupo, marca deadlines, faz as reservas, e por aí fora. É o administrativo, o combatente, a única esperança da viagem chegar a concretizar-se. Depois temos o contabilista, estamos a falar do homem que arranja os preços mais baixos, o homem que procura poupar cada tostão, nem que seja preciso viajar em bicicletas elétricas até Marrocos e apanhar uma avioneta clandestina de lá para França. Nem que se durma num barracão em Kiev durante duas noites para compensar a estadia na Polónia. Estamos a falar do homem que arranja maneira de viver duas semanas no Japão com 40 paus na carteira. Apesar de extremista, ajuda o organizador a encontrar bons preços e o grupo a poupar uns quantos euros para mais tarde serem gastos em cerveja.

 Por fim, temos o bom amigo. O bom amigo é aquele que apesar de saber que não está a contribuir na organização, agiliza o processo aos organizadores. Responde às coisas na hora, faz os pagamentos no minuto, envia os documentos necessários antecipadamente. É o menino de ouro dos organizadores, o soldado perfeito, o filho que qualquer pai gostaria de ter. 

A seguir a estes três só restam desinteressados. Gajos que arranjam problemas, sem procurar solução; gajos que têm de ser identificados cento e cinquenta e três vezes para realizarem um pagamento; gajos que passados quatro meses nem sabem para onde é a viagem e quando descobrem dizem mal do local; gajos que não dizem nada desde que o grupo foi criado, gajos que não conseguem pagar logo porque o financiamento está escasso; gajos que só dois dias antes da viagem é que vão saber se podem ir, e entre outro tipo de gajos, igualmente desafiadores e enervantes.

A verdade é que este problema afeta milhares de grupos de rapazes em Portugal. Estatisticamente, dois em cada três planos de viajar com amigos cai por terra. É preciso deixar de lado os tabus e falar abertamente sobre este problema grave que afeta tantos no nosso país. Sugiro criarem-se apoios para a viagem masculina, um pacote com um preço em conta e tudo incluído, para jovens até aos 35 anos. Este pacote deverá ser desenvolvido com a maior urgência, visto que a minha viagem é em Fevereiro e os meus amigos e eu não queremos ser vítimas de mais uma viagem a Praga não concretizada. Honestamente, ou isso, ou junto-me a um grupo de mulheres viajantes para o ano que vem.

Estrague o dia a mais alguém.
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