Irrelevância Crónica

21/09/2025

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Qual deles é pior, esquecimento alheio ou atraso de outrem? Qual deles é mais enervante, o esquecido ou o atrasado? “O Ricardo Salgado” ou “a noiva”? O que sofre de Alzheimer intermitente ou o que nasceu com um desvio temporal no córtex? Estive a pensar durante vários dias, com as minhas T-shirts lisas ausentes de botões, sobre este dilema, e percebi que o problema só será resolvido através de uma análise MEC. O que é uma análise MEC? É uma análise Miguel Esteves Cardoso, recheada de acrónimos e feita de forma minuciosa. Posto isto, coloquem os óculos e esvaziem as bexigas, que o comboio analítico vai arrancar da estação da Dúvida e só vai parar quando chegar à Solução.

  Ora, para começar, teremos de perceber a origem de ambos os conceitos. Recuando milhões de anos na linha cronológica, podemos afirmar que existe algo que distingue a perda de memória espontânea da falta de pontualidade. Esse “algo” é o tempo. 

Enquanto o esquecimento atua independente de datas e horas, o atraso só iniciou a sua existência após a invenção dos primeiros relógios. Durante a Pré-História, os Homo Sapiens não se atrasavam para nada porque o tempo era inexistente, aliás, ele existia, mas ainda não tinha sido descoberto. Por isso é que quando os Homo Sapiens macho saiam para caçar era indiferente as horas a que chegassem à gruta com o alimento, porém, se chegassem à gruta sem o alimento, porque se distrairam com uma flor rara ou com uma libelinha roxa gigante e esqueceram-se de caçar, o mais provável era levarem com um calhau nas beiças, selado e enviado pelas companheiras. 

Atualmente, as coisas são diferentes. A nossa vida rege-se pelo tempo. Cada dia, hora, minuto e segundo conta, tornando as consequências de um esquecimento ou atraso muito mais drásticas. Mas antes de falarmos das consequências, temos de falar dos tipos de esquecidos e atrasados, que se distribuem por duas grandes categorias: Os Esquecidos e os Atrasados – criativo, ou não? – Estas categorias subdividem-se ambas em duas subcategorias: Voluntários e Involuntários. 

Principiando pelos Esquecidos Voluntários (EV). O leitor deve estar a questionar-se se isso realmente existe, alguém que se esquece das coisas voluntariamente. Pois eu digo-lhe já que existe. Não só existe, como transborda na vida de cada um. Mas antes de seguirmos para a descodificação dos EV, é preciso conhecer a norma fundamental do esquecimento: O esquecimento está diretamente relacionado com a importância que se dá a determinado assunto/pessoa/atividade. 

Se há coisa que eu aprendi enquanto Ser Humano, é que uma pessoa não se esquece daquilo que considera importante. 

Por exemplo, se uma pessoa estiver a falar consigo, e você estiver completamente desinteressado, com o pensamento enfiado na morte da bezerra ou no seu ego astronómico, então está voluntariamente a esquecer-se do que aquela pessoa lhe está a dizer. Quando existe importância envolvida o sucedido não acontece.

 Digamos que eu devo dinheiro a alguém. Eu procuro pagar ou anotar, o mais rapidamente possível, para não me esquecer, porque para mim é importante que as pessoas me considerem uma pessoa honesta e correta – já falei sobre isto, trata-se do meu complexo de querer agradar a todos. Já quando a minha mãe, às vezes, me pede para fazer certas tarefas domésticas que não me agradam, eu tenho a tendência a tornar-me num EV. Contudo, não há nada a temer caro leitor, pois se sente que tem sido, recorrentemente, um EV para as suas amadas companhias e deseja mudar isso, existe uma solução simples. Basta atribuir uma importância aos apontamentos que não quer esquecer. Agarrando no exemplo anterior das tarefas domésticas. Apesar de não gostar de realizar tais tarefas, hoje em dia é raro esquecer-me de algo que a minha mãe me peça para fazer. A transformação foi fácil. Reparei que a minha mãe, quando eu não realizava as tarefas, ficava triste e frustrada, logo, como para mim é importante que a minha mãe não se sinta nem triste, nem frustrada, utilizo essa importância para não me esquecer de realizar as tarefas que me forem pedidas por ela. 

 Seguimos para a subcategoria dos Esquecidos Involuntários (EI). Estes são mais raros do que se pensa, mas existem. Os EI são aquelas pessoas que se esquecem devido a fatores internos (Stress, ansiedade) causados por fatores externos (Trabalho, Estudos, mudanças de vida). Quando uma pessoa entra em stress devido a determinada situação ou tem mil e um assuntos para tratar num dia, é normal que a cabeça esteja sobrelotada e por vezes se percam  memórias, quer seja pela matutação de uma ideia, quer seja pela desorganização cerebral. Porém, os EI são muito raros e ao conhecê-los temos de ter a firmeza para não os desculpar de todo e qualquer esquecimento. Convém lembrar-se dos anos do filho, de dar de comer ao cão e de ler o Irrelevância Crónica aos sábados. Outro cuidado que é preciso ter é com os EV disfarçados, que muitas vezes gostam de se fazer passar por EI. É necessário adquirir o tato para saber distinguir os comportamentos e jeitos de cada um, como quem distingue um par de gémeos idênticos.

  Assim concluímos uma das categorias e iniciamos a seguinte: Os Atrasados. 

Seguindo a mesma lógica, falemos dos Atrasados Voluntários (AV) . 

Ora, enquanto o esquecimento está diretamente relacionado com a importância, o atraso é diretamente proporcional à despreocupação. Os termos importância e despreocupação podem parecer ter o mesmo sentido, mas são bastante diferentes. Uma pessoa relaxada pode dar importância às coisas, simplesmente não stressa sobre elas. 

Os AV são indivíduos descontraídos, talvez os mais descontraídos. É-lhes inato, está-lhes nas veias. Por mais irritante que possa ser, começar um jantar de anos e o amigo AV aparecer à hora da sobremesa, tem de o aceitar. Pelo menos apareceu, fez o esforço. A única razão que há para repreender um AV é se o seu atraso criar implicações a terceiros. Isto é, se causar algum tipo de constrangimento à/às pessoa/as com quem combinou. Por exemplo, se marcou um campo de futebol durante uma hora e convidou 9 amigos para jogar um “5 para 5” e o seu amigo AV teve a audácia de aparecer 30 minutos atrasado, aí é preciso repreender. No entanto, no caso dos AV’s, o mais provável é eles prejudicarem-se a si mesmos, quer seja por deixarem de receber convites para jogar à bola ou  por despedimento com justa causa. Ainda assim, existe uma certa tolerância de tempo de atraso que varia consoante as situações.

 Atividades de tempo limitado com amigos: 10 minutos de tolerância; Trabalho: 5 minutos de tolerância; Desejar feliz aniversário a um amigo: um dia de tolerância; Aparecer no batizado da sobrinha do seu namorado/a alcoolizado/a: Tolerância nula independentemente da pontualidade.

Para finalizar temos a subcategoria dos Atrasados Involuntários (AI), estes, tal como os EI, são aqueles que são afetados por fatores externos (trânsito, furos em pneus, falecimentos de familiares, animais doentes, etc). São as famosas vítimas dos imprevistos.  Os AI, no fundo, somos todos nós. Tanto eu, como – creio eu – o leitor, já aparecemos com atraso a algum evento, após sofrermos, sem qualquer aviso, uma rasteira por parte do destino. Digo rasteira, como digo entrada a pés juntos com chuteiras de pitons de alumínio. Ninguém escapa ao destino, sejamos relaxados ou stressados, de tempo em tempo, todos nós aderimos ao grupo dos AI. 

Terminámos a análise das categorias, mas ainda faltam os grupos de combinações entre elas. O grupo dos Atrasados Porque Se Esqueceram (APSE) e o dos Esquecidos Porque Se Atrasaram (EPSA).

Os APSE, são aqueles que, como o nome indica, chegaram atrasados porque se esqueceram do evento. Portanto, acabam por ser EV ou EI que, milagrosamente, se recordaram de tal evento ou marcação e subtilmente fazem a transição para AI – a não ser que o evento seja uma peça de teatro, aí continuarão a ser E`s. O grupo dos EPSA, é constituído pelos que devido a estarem atrasados, se esqueceram de algo (detalhe, objeto, etc), normalmente, são AI’s muito agitados, que pelo stress do seu atraso, se esquecem de levar uma mala para o aeroporto ou de fazer uma sobremesa para um jantar ou de dar um título a uma crónica… filiando-se assim aos EI.

Feitas as categorias, grupos e combinações posso, finalmente, responder à pergunta colocada no início do texto. Qual o pior: O esquecido ou o atrasado?

 Depois de tantas letras gastas neste tema e de muita reflexão sobre essas mesmas letras, chego ao desfecho de que o pior não são os Atrasados, nem os Esquecidos… São os Presunçosos. 

Os que não perdoam as falhas e carecem de empatia. Os que se acham perfeitos, melhores que os outros. E porquê esses? Porque a vida são dois dias, quer o leitor se esqueça ou se atrase, serão sempre dois dias. E no fim o que importa é perdoar e… Estou a brincar consigo. O leitor conhece-me, não me vendo a estes finais felizes inspiracionais e rascas que o público adora. 

AV, EV, EI, AI, APSE e EPSA  são todos detestáveis. Os piores são os EV. As melhoras para todos eles.

Estrague o dia a mais alguém.
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