13/09/2025
Vida sobre rodas
Não é nada fácil ser pai. Agora um dos meus filhos anda com uma bicicleta para todo lado. Por mim, ele pode fazer o que lhe apetecer na rua. Mas trazer a bicicleta para dentro de casa? Quando digo dentro de casa não me refiro a deixá-la numa arrecadação, não, a bicicleta senta-se connosco à mesa de jantar. É difícil dizer que não a um filho, ainda por cima depois dele ter perdido a mãe. Eu tentei alertá-lo, cautelosamente, para a falta de noção de colocar uma bicicleta à mesa de jantar, mas foi em vão. Por isso agora janto com os meus dois filhos e uma bicicleta. Mas é pior que isto. Há uns dias apanhei esse meu filho a ver um filme com a bicicleta. Ao que parece há bicicletas inteligentes que percebem argumentos de filme. Umas horas depois, subi ao primeiro piso de minha casa, e ouvi um “Trim trim trim” a vir da casa de banho. O meu filho tomou banho com uma bicicleta. Nada pode ser pior que isto, certo? Errado. Ele anda a dormir com a bicicleta. Eu não confirmei por mim próprio, mas tenho a certeza, ele anda-se a deitar com a bicicleta e quem sabe a fazer o quê. Sim, porque eu sou pai e tenho de estar atento a essas coisas. Eu reparo nos afetos e mimos que ele dá aquela bicicleta, não sou cego. Sei que muito provavelmente se trata de uma resposta ao trauma de ter perdido a mãe daquela maneira. Espero bem que seja isso. Não me deixa confortável a ideia de que o meu filho esteja apaixonado por uma bicicleta porque ama bicicletas. Não é normal. Mas o que é que eu posso fazer? Proibi-lo de estar com a bicicleta? Desfazer-me dela? E fazer o meu filho passar por um segundo desgosto? Não. Já me basta a culpa que carrego do primeiro. “Com o tempo ele há de perceber”, pensei eu. Porém, não percebeu. E dois meses depois, a bicicleta continuou a acompanhá-lo para tudo o que é lado: Almoços de família, cinema, oceanário, passeios a cavalo, salto de paraquedas… Até quando viajou para a Colômbia em trabalho, ele comprou um bilhete extra para a bicicleta. Para quê pôr tudo em risco por uma bicicleta? Não consigo entender… Mas não ficou por aí. Depois dele ter assistido a um concerto com a bicicleta para celebrar o aniversário da mesma, noticiou-me que ia morar com ela. O meu filho mora com uma bicicleta. É suposto aceitá-lo? Faz-me confusão porque se ele quisesse conseguia muito melhor que aquilo. Eu conheço tantas motas bonitas, era só ele largar aquela lambisgóia.
Até que, após seis meses de sacrifício a aguentar com aquela relação inútil, chegou o dia pelo qual menos esperava. O meu filho veio visitar-me e trouxe notícias lastimáveis: Ele pediu-a em casamento e ela disse “Trim”. A minha expressão mudou de insatisfação para indignação. Para mim aquela brincadeira acabava ali. Por isso, sem gaguejar, disse-lhe:
– “Não há a menor hipótese disso acontecer. Esquece.”
– “Como assim? Qual é o problema?”
– “O problema é que ela é uma bicicleta.”
– “Uau. Finalmente, a deitares cá para fora o que sentes. E qual é o problema dela ser uma bicicleta? Eu amo-a.”
– “Olha para nós, filho. Não é suposto casarmos com uma…”
– “Com uma quê? Com uma ‘bicla’? Era isso que ias dizer, não era pai? Pois fica sabendo que esta ‘bicla’ vale muito mais que qualquer um como tu.”
– “Filho, vá lá, tu sabes que ela não é veículo para ti. Pior que bicicletas só mesmo aquelas trotinetes elétricas. Tu precisas de uma motorizada. Um veículo que consiga acompanhar-te nas autoestradas e carregar os teus futuros filhos. Ou queres passar os teus domingos a ser buzinado em estradas nacionais?”
– “És um veiculista*, é o que és. Ainda bem que a mãe não está cá pra ouvir a merda que tu dizes. Vamos embora, Merida.”
– Vrum vrum. O que é que disseste? Vrum, vrum.
– Tu ouviste bem. Vrum vrum.
Parti para cima dele e deu-se o início da nossa enésima luta. Ele é mais esguio, apenas com 125cc, por isso conseguiu facilmente desviar-se do meu primeiro golpe de pneu dianteiro. Agiu rápido e acertou com uma das suas manetes no meu farol esquerdo, que acabou em cacos. Aquele momento chocou-o. Por isso, ainda que com a visão turva, aproveitei e fiz-lhe uma rasteira na roda traseira que lhe estava a servir de apoio e ele foi ao chão. Colei-lhe o pneu dianteiro ao motor. Tinha vantagem perante o meu adversário, podia tê-lo desmantelado. Mas sob a sua chapa, olhei-o e vislumbrei a minha esposa, sua mãe. Sempre foi parecido com ela, têm o mesmo para-brisas. Abandonei a minha posição. Ele levantou-se, recompôs-se com ajuda da bicicleta e ambos rolaram para a saída.
– “Onde é que vais?” – gritei-lhe.
– “Embora daqui para fora. Nunca mais quero ter de olhar para esses pneus carecas.“ – berrou ele enquanto seguia para a porta.
– “E o negócio de família? Vais abandonar-nos?
Ligou-se-lhe o pisca esquerdo de nervosismo e não vacilei:
– “O quê? Não me digas que a ‘bicla’ não sabe o que fazes da vida.”
Apesar da tentativa de se mostrar firme, o motor dele acelerou perante o lanternar confuso da bicicleta e aproveitei:
– Não achavas que os passeios a cavalo, os concertos, a casa e esse selim de noivado forjado com diamantes, seriam acessíveis a um emprego normal, ou achavas ‘pedalzita’?
A corrente da bicicleta gelou e o refletor empalideceu. Os retrovisores dele rebaixaram-se ao vê-la estremecida, mas a resposta enraivecida não demorou:
– “Tu és patético. Seu pedaço de lata velha amargurado. Nunca mais voltes a falar comigo, ouviste?”
– “Eu é que sou patético? Tu pediste em casamento um veículo em que nem sequer confias. Há algo mais patético que isso?”
Quase como que para aumentar a tensão ouviu-se a campainha – a de casa, não a irritante da bicicleta. Eu não esperava ninguém e fiquei desconfiado. Tanto podia ser o carteiro, como um capanga dos NitroTurbo ou dos Pneu Violeta para mais um ajuste de contas. Neste ramo não se arrisca, ele certificou-se de me fazer compreender isso.
Fiz sinal ao meu filho e saquei a minha caçadeira do armário da entrada, enquanto ele puxou da Glock que carrega sempre consigo debaixo do banco. Ele abriu a porta, cuidadosamente. Silêncio. Não se via ninguém. Subitamente, ouviu-se um vidro a estilhaçar, vinha da janela da sala. Eu fui verificar, mas não consegui ver nada, entrou-me uma coisa para o farol. Finalmente, consegui retirá-la, mas continuava sem conseguir ver nada, a sala encheu-se de fumo violeta. O meu filho chegou segundos depois. Ambos sabíamos o que aquilo significava. Tratava-se da entrada de marca dos NitroTurbo: fazer-se passar pelos Pneu Violeta. Mas não enganaram ninguém, ambos sabíamos que o fumo usado pelos Pneu Violeta é púrpura, quase a bater no lilás.
Os nossos motores trabalhavam mais rápido. Banco com banco, fitava o fumo que se propagava, enquanto ele observava a porta de casa, já fechada. Perguntei-lhe onde estava a bicicleta, ele disse que a tinha escondido na arrecadação. Eu ri-me. Ele não achou piada. Os ruídos dos impugnadores ouviam-se ao longe. Estavam prestes a iniciar o ataque. Pareciam-me ser uns cinco ou seis, não mais que isso. Provavelmente, todos armados e com pinturas a condizer. Vruuuuuuuum. O primeiro pneu surgiu pela fumaça. Fui rápido no gatilho e furei-o de imediato. O meu filho finalizou com um disparo no motor. Seguiram-se outros três. Abrigamo-nos dos disparos das metralhadoras atrás do móvel da sala. Fui atingido na jante traseira. Nada que me impedisse de prosseguir. O meu filho aproveitou a pausa da chuva de balas para ripostar. Esvaziando um carregador abateu dois de três inimigos. Ou melhor, dois de cinco, sendo que mais quatro pneus, com a palavra “Turbo” neles esculpida, surgiam do hall de entrada. Vi-os chegar e um deles – amador, como a maioria dos NitroTurbo – deu-me abertura para o seu depósito. Não facilitei e deu-se uma explosão brutal, daquelas mesmo top.
Pelas minhas contas faltava apenas um, mas pela fumaça surgiram trinta e quatro faróis alinhados. Algo não estava a bater certo. Fiz uma chamada rápida para a minha explicadora que disse que o resultado enganador se devia a um erro básico numa equação, o que segundo ela, “só demonstra falta de estudo”. Não estava errada.
O som das trinta e quatro metralhas era ininterrupto, como um alarme de incêndio no meio de um vulcão. Olhei para o meu filho como se fosse a última vez, mas entretanto lembrei-me que tinha marcado campo de padel dali a dois dias e eles não fazem reembolsos. Não ia ficar a arder com 40 paus.
Abri o compartimento secreto que fica num sítio que não revelarei para que não deixe de ser secreto, por baixo do armário, e peguei na bazuka. O meu filho fez o carregamento e lançou um cinto cheio de granadas contra a concorrência, minuciosamente, antes do meu disparo. Booom. Com uma bala, foram todos pelos ares, exceto dois deles que tinham medo de voar e, por isso, apanharam o 76 até à Pontinha. Esperamos uns minutos. O fumo dispersou-se e a visão era nítida. Não se via, nem ouvia ninguém. Fizemos uma ronda pelas divisões. “Como é que eles descobriram a minha nova morada?”, era o que me passava pelas rotações. Mais tarde percebi que, quando publico fotografias do meu cão a dormir em posições parvas nas redes sociais, não posso adicionar a minha localização.
Não sobrou nenhum NitroTurbo e, se sobrou, foi inteligente o suficiente para fugir a sete rodas, com o tubo de escape entre elas. Durante a ronda, observei o móvel, que mal se aguentava em pé. Vários objetos insubstituíveis foram destruídos, inclusive a última fotografia da minha esposa e vários dos meus livros preferidos de culinária sem aditivos. Aquilo não ia ficar assim.
O meu filho foi buscar a bicicleta à arrecadação. As manetes dela tremiam, assim como o resto da sua figura. Lembrou-me de uma peça de cerâmica que observei uma vez num museu em Marselha durante um terramoto. Ele mirou-me com os seus grandes faróis cor de avelã esverdeada, com toque de sol, e rasgos de cómoda do séc.XV, por um segundo. Depois, deu meia volta e dirigiu-se para a porta, juntamente com a bicicleta. Eu nem me importei. Naquele momento, percebi que, apesar de tudo, e, tendo em conta as circunstâncias, só queria que o meu filho e a bicicleta fossem embora. Tinha almoçado numa gasolineira barata e os fumos dos NitroTurbo deram-me a volta ao depósito.
Com pesar, ele abriu a porta para sair, mas desta vez, teve o seu caminho bloqueado. Esbarrou de pára-choques com a minha outra filha, Yama, que vinha de manete dada a uma trotinete elétrica.
É lixado como o caraças ser pai.