Irrelevância Crónica

06/08/2025

Soltou-se o cabo e a boa esperança

Caiu o elevador da Glória, vá lá aguentaram-se o Carmo e a Trindade. Ainda assim, não foi evitada a tragédia. Nunca percebi porque é que quando os portugueses realizam algo positivo e marcante para a nação se mudam os nomes de coisas, mas quando acontece o contrário – uma tragédia, um retrocesso – não mudamos o nome de nada. Se depois de dobrar o Cabo das Tormentas o passámos a chamar de Cabo da Boa Esperança, acho que seria sensato alterar também o nome do elevador da Glória após o acontecimento fatídico da semana passada – até porque entre dobrar e soltar cabos não existe grande diferença. Por mim, esqueça o elevador da Glória, passemos a chamar-lhe o descarrilador da Inglória. O elevador da Glória pode juntar-se à ponte Salazar e ao nome Frederico, cujas designações passaram a ser ponte 25 de Abril e Fred, respectivamente.

 Mesmo Pedrógão Grande não deveria ter trocado de nome com o Casal Queimado? Para as coisas boas mudam-se os nomes, para as coisas más queimam-se os nomes. Há alguém que não associe Pedrógão Grande a incêndio ou a praia da Luz ao desaparecimento de crianças britânicas?  Parece-me que o ideal seria mudar de nome para apagar o passado. Assim quando disserem “Ahh, tem cuidado, na praia da Luz desaparecem crianças britânicas”, nós dizemos “isso era antigamente, agora chama-se praia da Cruz. É seguro.” 

Cuidado ao analisar a nacionalidade das vítimas (mortais e não mortais) do acidente pois, apesar de tudo indicar ao seguinte, não estava a decorrer nenhuma assembleia geral da ONU no local. Tratavam-se de turistas, pessoas que tiraram o seu tempo para visitar Portugal e os seus encantos, mas viram os seus planos alterados porque não havia orçamento para a manutenção do carril.  Esta atrocidade é o equivalente a um português ir visitar Paris e levar com a Torre Eiffel na testa. Felizmente, isso nunca poderá acontecer porque a Torre Eiffel não fica em Portugal. 

Ao que parece o Elevador da Glória – agora conhecido como Descarrilador da Inglória – já tinha saído do trilho em 2018 devido a uma anomalia técnica, na altura, sem causar vítimas. 

Bons tempos quando descarrilavam elevadores sem causar alvoroço. Agora acabou, agora tem que se apurar responsabilidades e realmente resolver os problemas em vez de empurrar com a barriga… enfim, uma chatice.

 Após o acidente da Glória, foram suspensas as atividades nos elevadores da Bica, da Lavra e do funicular da Graça, que é como quem diz: ”O melhor é não arriscar”. Contudo, não deixei de fazer o meu trabalho e arranjei nomes alternativos para todos eles. O elevador da Imbica, o elevador Lavrador e o funicular da Desgraça. 

Dado o incidente triste, o governo decretou um dia de luto nacional pelas vítimas e pelo cargo político do vice-presidente da câmara de Lisboa que já garantiu que ele quem deve responder sobre o que se sucedeu na Rua da Glória – agora conhecida como Rua da Inglória.

De agora em diante resta-nos esperar que os turistas que ficaram feridos tenham gostado da estadia nos nossos Hospitais e passem a mensagem aos seus amigos e familiares, assim passam a visitar turisticamente os nossos Hospitais e o descarrilador da Inglória pode descarrilar à vontade sem causar vítimas, como nós gostamos. Esperemos que não descarrile uma maca ou carrinho com bisturis para cima de nenhum turista em nenhum hospital, mas também se isso acontecer basta mudar o nome do Hospital da Luz para Hospital da Cruz e ficará tudo bem.

Estrague o dia a mais alguém.
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