24/05/2025
Mais uma vez
Cheguei atrasado ao meu local de trabalho, mais uma vez. O Pedro, gerente do restaurante, não deu por isso, mais uma vez. Ou talvez tenha reparado e não estivesse para se chatear mais uma vez. Fardei-me, bebi um copo de água e dirigi-me ao meu habitual posto – à porta do restaurante, em cima do primeiro degrau, com vista para a ‘Rua amarela’ inteira – mais uma vez.
Aquele é o sítio ideal para um empregado de mesa: Sem me mexer, consigo ter o olhar sobre a esplanada, o interior do estabelecimento, as bebidas que saem do bar, os restaurantes vizinhos, os clientes que saem e os potenciais clientes que passam. Chegaram a Sra. Rosa e o Sr. Artur para almoçar, mais uma vez. Mais uma vez, no sentido de ser costume irem lá almoçar ao restaurante, e não no de estarem a almoçar pela segunda vez no mesmo dia (Provavelmente não necessitava de ter explicado isto, você pela colocação da vírgula terá percebido, mas pronto lá estou eu a subestimá-lo, mais uma vez).
A fila para o restaurante da esquerda faz troça da nossa esplanada vazia, mais uma vez. Não percebo a paixão dos turistas por tapas. Porquê pagar um preço exorbitante por lascas de casca de batata e croquetes em miniatura, quando podemos comer três quilos de guisado, em qualquer restaurante decente, e pagar menos de 15 euros por cabeça.
Durante os meus pensamentos, de visão fixa num toldo que esvoaçava e roçava no capachinho de um estrangeiro, o rapaz loiro do restaurante da esquerda passou, mais uma vez. Eu olhei-o e ele fez-me o gesto do polegar para cima, mais uma vez. A interação é sempre a mesma, desde há 6 meses, quando comecei a trabalhar sob as ordens do gerente Pedro e a servir a Sra. Rosa e o Sr. Artur, diariamente. O rapaz passa, olho para ele, ele olha para mim, ele levanta o braço acima da cabeça com o seu polegar apontado para as nuvens e eu faço o mesmo, mas com a vocalização de um “Tudo bem?!”. Contudo, ao expelir a minha fala, já o seu olhar segue direcionado para onde tem de ir, e fico sem resposta, mais uma vez.
Cumprimentamo-nos quase todos os dias. Não é estranho? Cumprimentar um estranho diariamente? Se calhar não. Cumprimento, todos os dias, a recepcionista do ginásio e não a conheço. Disse todos os dias? Estou a mentir, mais uma vez. “Alguns dias” era o que deveria ter dito. Qualquer pessoa pode analisar este corpo e confirmar que até “alguns dias” pode ser considerado exagero. Será que o rapaz loiro do restaurante da esquerda o faz? Quero dizer, será que ele faz essa análise do meu ser? Será que ele me toma como alguém que vai ao ginásio? Provavelmente não. Será que ele me toma por alguém que escreve? Provavelmente não. Será que ele percebe que faço Karaté? É capaz, mas provavelmente não, até porque não faço Karaté. Mas certamente que ele tem noção de que sou pobre, não? Diria que sim, pelo menos essa é a noção que tenho dele.
Quem trabalha em restauração não pode ser rico, pelo menos em termos de riqueza monetária. Se bem que ele também não tem ar de ser um magnata em termos de intelectualidade. Tem ar de surfista. Aquelas tatuagens minimalistas que tem no braço, não enganam. Tem ar de rapaz nórdico, que veio para Portugal para fazer surf e trabalhar num restaurante de tapas. Daqueles que se agacham na areia molhada, de fato vestido até ao ilíaco, com a prancha sobre as coxas, a servir de apoio aos cotovelos, e contemplam o mar, como se esse não passasse de água salinizada que reflete a cor do céu.
Senti um toque no meu ombro. Era o Pedro a pedir-me para eu fazer os cocktails da Sra.Rosa e do Sr. Artur, mais uma vez. Mais uma vez, mojito para a Sra.Rosa e whiskey sour, sem açúcar, para o Sr.Artur. Quem deve fazer grandes cocktails é o rapaz surfista loiro do restaurante da esquerda. Pelo menos, às vezes, quando olho para lá, vejo-o empenhado nos shakers, como se para ele fazer um cocktail fosse mais que um trabalho, fosse uma arte. Uma pessoa com esse empenho tem de ser alcoólica. Aliás, tem de ter gosto em ser alcoólica. Rapaz nórdico, surfista, loiro e alcoólico do restaurante da esquerda, é um nome longo. Ele tem cara de Hjulmand, o capitão da equipa de futebol do Sporting. É muito parecido. Por isso, assumi que responde por Hjulmand.
Pousei os cocktails na mesa do casal, mais uma vez, e regressei ao meu posto, mais uma vez.
De repente ouvi um estrondo, no interior. Girei a face para dentro do restaurante, mais uma vez, e avistei a Sra.Rosa caída no chão. Foi a primeira vez. Corri para perto do Sr.Artur que se agachou perto dela. Descia pela boca da Sra.Rosa um líquido espumoso, enquanto sofria de sucessivas convulsões violentas, seria a primeira vez? Para mim foi. O Pedro desceu do piso de cima e agiu rápido, ligou ao 112, pela primeira vez, e ordenou-me que chamasse ajuda, pela primeira vez. O que é que se estava a passar? Já não estava habituado a reagir a tantas coisas pela primeira vez. Corri para fora do restaurante e gritei por um médico, pela primeira vez. Gritei inúmeras vezes, não terá sido a primeira vez. Até que o Hjulmand entrou no nosso restaurante, pela primeira vez. Fiquei confuso, como é que um surfista alcoólico que trabalha num restaurante de tapas havia de ser útil? Seria a primeira vez.
Lembrei-me, depois, que podia ser que ele tivesse trabalhado como nadador-salvador e soubesse uma manobra ou outra de salvamento.
O Hjulmand arregaçou as mangas perto da Sra.Rosa e disse:
– Não se preocupe, eu sou médico.
– Como assim és médico, Hjulmand? – respondi, sobressaltado.
– O que é um médico Hjulmand? – perguntou-me, dando início à nossa primeira conversa, pela primeira vez – passo a redundância.
– Hjulmand é o teu nome e médico é a tua incrivelmente ilógica profissão.
– O meu nome é Tiago, e sim sou médico. – Disse ele, enquanto tirava um dos seus sapatos e punha na boca da Sra.Rosa.
– Hjulmand, não me parece que o problema da Sra.Rosa seja fome, sendo que ela acabou de mamar dois cestos de pão com manteiguinhas.
– Isto serve para ela não morder a língua nem partir os dentes.
– Hjulmand, é…
– Tiago.
– Isso, Tiago… És surfista?
– Não.
– Como assim?! Então és o quê?
– Cardiologista, escritor e barman.
– O quê? Eu também sou escritor! Escreves o quê?
– Tenho dois romances publicados, e escrevo regularmente textos de opinião para o jornal ‘Texto’. E tu?
Paniquei:
– Eu? Também… tenho livros e coisas publicadas.
– Boa. Os teus livros falam de quê?.
– Pois os meus livros…ah… é que são tantos, que eu nem consigo…ah… especificamente?…são sobretudo…ah… a verdade é… é isso, os meus inúmeros livros são sobre tudo e a verdade.
– Interessante, como é que te chamas?
– Como é que eu me chamo?…ah… chamo-me António. António Lobo Antunes.
– Tens graça. Mas a sério como é que…
– És rico? – interrompi-o, nervosamente.
– O quê?.
– Se tens dinheiro suficiente para comprar uma moradia?
– Não, uma moradia não. Talvez dois apartamentos no Saldanha.
– Mas que? O que é que estás a fazer a trabalhar num restaurante de tapas, então? És masoquista?
– Fartei-me de ser médico, não me estimulava; e sempre quis trabalhar num restaurante de tapas.
– O quê? Fartaste-te de salvar pessoas para passar a enganá-las com comida sobrevalorizada? Isso não faz sentido nenhum.
– “O sentido é um caminho que cada um de nós decide traçar”.
– Quem é que disse isso?.
– Eu, no meu segundo romance: “Sentidos e caminhos”.
O 112 chegou, e ainda bem, pois aquela frase quase me fez vomitar sobre o corpo inanimado da Sra.Rosa. Levaram a Sra.Rosa e o Sr. Artur. Um dia depois ficaram a saber-se as notícias: A Sra.Rosa tivera sido envenenada com álcool gel. As câmaras de vigilância desvendaram tudo: fui eu. Quando fiz o cocktail da Sra.Rosa pus álcool gel em vez de xarope de açúcar, mais uma vez. Que erro tremendamente comum. Infelizmente, a Sra. Rosa…como é que eu hei de dizer isto… terá de usar bata durante duas semanas, no Hospital onde ficará a recuperar. Contudo, o que me deixa realmente destroçado é o facto de ter falhado redondamente nas deduções que fiz do Hjulmand. Parece que o meu sonho de me tornar um detetive, como o Sherlock Holmes, morreu. Fui traido pela minha própria intuição, se é que lhe posso chamar de intuição. Ao rever o meu raciocínio sobre o Hjulmand, vejo que as observações feitas se trataram sobretudo de preconceitos parvos. Mas não tenho culpa, a sociedade é que me tornou assim.
No dia seguinte, passei pelo meu posto, sem assumi-lo, pela primeira vez. Vi o Sr.Artur a comer sozinho, pela primeira vez. O Pedro despediu-me, pela primeira vez, enquanto me insultava, pela, no mínimo, quadragésima quinta vez. Olhei para o restaurante da esquerda e o Hjulmand não me cumprimentou, pela primeira vez; porque já não era o Hjulmand, era o médico escritor Tiago que ficou a saber que eu envenenei uma velha com álcool gel, pela sexta vez.