17/05/2025
Comboiadas
O comboio tinha partido há dez minutos, sentido “Cais Sodré”. Encontrava-me de pé, num canto, perto da última porta. O meu olhar desdobrava-se entre as letras de um livro e um casal jovem à minha esquerda. Não que a leitura de “Quincas Borba” não fosse apelativa, até porque desde que li “As memórias Póstumas de Brás Cubas” fiquei apaixonado pela escrita de Machado de Assis. O problema é que os miúdos ao meu lado não paravam de se amassar à grande e à francesa — juro, leitor; nunca vi tanta língua para tão pouca boca.
Não me leve a mal, gosto de uma boa troca de beijos como qualquer alma saudável e esperta, só não gosto quando essa troca de xoxos é feita a favor do meu braço esquerdo.
Passava das seis da tarde, hora de ponta. Tinha decidido ficar de pé para estar à vontade e dar lugar a pessoas mais velhas e cansadas. Erro crasso. Arrependi-me mal senti o braço do adolescente a raspar-me enquanto ‘afalfava’ o enorme glúteo da rapariga — não julgue, era impossível não reparar; nem uma toupeira conseguiria não atentar o tamanho do pernil.
“Digo-lhes ou não?”, era o que me passava pela cabeça ao mesmo tempo que fingia ler. Comecei a arranjar motivos para não dizer nada: O braço do jovem não abalroa constantemente, vai e vem com os solavancos da carruagem: ele não tem culpa. A carruagem está cheia: é normal que haja encostos. Naquela idade, as hormonas não perdoam: também passei por isso. Já só faltam sete paragens: eu aguento.
Retomei a leitura. A ação tinha acalmado. O jovem, ainda agarrado à dama, conversava com outros três amigos presentes na carruagem (A gangue do louva-a-deus, do porco-espinho e do sardinha): “Baza dar um giro na praia?”, dizia o louva-a-deus, com os seus braços mais finos que uma alface a esforçarem-se pra segurar um telemóvel. “Nepia, já não dá tempo. Bora para casa dela. A tua mãe tem lanche ou não?”, respondeu o rapaz com quem me roçava — o macaco líder.
“Porque é que não te vais encostar a eles e vão todos juntos lanchar para a praia?” — era o que teria dito, se não me faltasse peito. “Onde é que ela vive?”, perguntou o porco-espinho, que era tão baixo que se não fosse pelo seu cabelo espigado a contribuir com uns bons 4 centímetros, ninguém o via, pelo menos sem o auxilio de um microscópio. “Picoas”, respondeu-lhe a mulherzinha, prestes a telefonar à mãe. Dei por mim a ler sem me lembrar do que li; restituí o foco e regressei ao início do capítulo.
(“E o sardinha?”, pergunta-se. O sardinha era tão calado e inseguro que o seu corpo espadaúdo limitava-se a seguir o cardume eclético do macaco-líder, sem opinar nem questionar.)
Em Oeiras entrou uma multidão e o caldo tornou a balançar. Os jovens ajustaram-se e agora tinha a rapariga virada na minha direção com o rapaz a abraçá-la por detrás. Tentei focar-me nas palavras, mas no arranque do comboio, o seio direito da jovem invadiu a página número 22 do meu livro. Tinha um peito juvenil interessado em Quincas Borba.
Ajeitei o livro para a direita e virei costas à miúda e à sua tetinha curiosa. Fiquei orgulhoso da atitude, muitos rebarbados teriam aproveitado o ensejo. Quando achei que o perigo tinha passado, eis que sinto certas nádegas monstruosas a atracarem-se às minhas pernas, assim como, as suas omoplatas a cumprimentarem-me a coluna. Olhei para trás, estavam novamente a polir os dentes um do outro.
A sua plateia (os amigos) observava com tanta atenção que só lhes faltava tirarem notas. O pior de tudo é que já me sentia parte do espetáculo. Se aquilo fosse uma cena de sexo escaldante, a rapariga era a rapariga, o rapaz era o rapaz, e eu era a cama. Usado para amparar movimentos bruscos e prover-lhes de todo o conforto durante a calorosa cópula.
A situação tornou-se insuportável — não que antes estivesse a ser agradável. O caldo entornou-se. Num ato instintivo de coragem, voltei a face e num tom alto e imperativo disse: “Importam-se!”. Silêncio. As minhas costas foram rapidamente desocupadas. Senti-me adulto, apesar de já o ser.
“Consegui!” — surgiu-me o entusiasmo ainda misturado com a altivez provocada pelo momento. Porém, o feito foi curto. Ouvi a voz da rapariga: “Está ciumento, é?”. Os amigos riram-se. Ignorei. O rapaz seguiu a deixa: “Já devia estar a ficar teso”. Mais risos. Fingi não ter ouvido; apesar da minha face se avermelhar à mesma velocidade que o Estádio da Luz num dia de jogo. “Porque é que foste falar? Não sabes que os miúdos desta idade adoram conflitos, seu estúpido?” — raciocinava, enquanto voltava para o início do capítulo VI, pela quinta vez. “Por isso é que se virou de costas, para esconder a ‘tusa’” — disse o rapaz, enquanto a rapariga voltava a embater com o seu traseiro imenso nas minhas coxas. O riso dos companheiros atingiu o pináculo. Para eles, tratava-se de pura comédia. Para mim, uma das maiores humilhações da história.
Depois do confronto, os olhares da vizinhança tornaram-se assíduos, mas não passaram disso; a situação parece não ter sido suficiente para lhes suscitar a intromissão. Não julgo, faria o mesmo.
Os libertinos voltaram ao ativo, mas desta vez, punham propositadamente ênfase em cada achega à minha dorsal. “Sacanas dos putos”, esta era a frase que servia de cabeçalho dos meus pensamentos. Por essa altura, orquestrava um plano para lhes ensinar uma lição, ou pelo menos castigá-los. Tinha de ser rápido, saiamos em três paragens. A raiva insistia na abordagem agressiva: virar-me, espetar um soquete a cada um dos rapazes, insultar a rapariga, sair na próxima estação. Mas era apenas ficção, uma cena de filme de ação em que o protagonista se afirma como badass. Nunca seria capaz, não sou badass e muito menos protagonista. Nem a banalidade, nem a decência do meu ser o permitiriam.
Pensei em chamá-los à razão, fazê-los ver que me estavam a incomodar, apelar à empatia. Só que não ia servir de nada, pareceria um pai a ralhar com os seus filhos, um adulto desautorizado perante jovens desafiadores; quanto muito dar-lhes-ia mais gozo o desrespeito.
Porque não simplesmente mudar de sítio? Deve estar a interrogar-se, ao mesmo tempo que me chama de burro. Meramente porque, ademais da carruagem apinhada não oferecer buraco onde me enfiar, isso seria assumir derrota, admitir que qualquer pirralho faz de mim gato-sapato. Nem pensar.
O contacto era constante e nada confortável. O rabo dela era tão grande que quase me podia sentar nele e ainda sobrar espaço para mandar construir um condomínio com piscina. Ele atirou para o ar: “Gostas?”. Mais uma dose de gargalhadas, mas nem prestei interesse; ao ouvir aquela provocação, fez-se luz na minha cabeça. “E se alinhasse na brincadeira dos bandalhos? E se fingisse ser um pervertido? Esfregar-me neles como um cão num relvado.” A luz apagou-se no instante seguinte. Não ia fazer isso. Seria nojento, sou um homem de princípios, com valores; jamais faria uma coisa dessas, por mais que merecessem. Além disso, não deixam de ser miúdos; o mais provável seria acabar algemado ou agredido por algum homem honrado — sortudo como sou, os poucos que existem estariam todos naquela carruagem.
Prestes a chegar à penúltima estação, pelo canto do olho esquerdo, averiguei o casal desavergonhado. Reparei que o telemóvel do safado era demasiado grande para o seu bolso das calças; mais de metade do dispositivo estava pendurado no contorno da algibeira, como se fosse uma cria de passarinho prestes a realizar o primeiro voo.
“E se eu lhe roubasse o telemóvel? Não há nada mais sagrado para um adolescente do que o seu telemóvel. Seria esperar até ao último segundo, pegar no telemóvel e sair.” Surgiram-me as contrariedades — “Estaria a cometer um crime; um delito justo e moralmente contornável, é um facto; mas não deixa de ser um crime”.
Virei-me de lado para o casal, sem conseguir evitar esfregar o quadricípite na culatra astronómica da criança. Comecei a ficar nervoso. Escorria-me suor da testa. A minha cabeça comandava os meus olhos numa sequência cinematográfica entre o livro, o telemóvel do rapaz, o nome da estação e a porta. Formou-se um loop. O comboio iniciou a travagem. Tudo a postos, era “agora ou nunca”.
Avancei para a porta. Os miúdos sorriam com desdém. Pausei ao lado do jovem importuno, fixei-o nos olhos e mantive a cara séria. O seu sorriso desaparecia à medida que o medo o consumia, embora se notasse uma tentativa de colocar uma postura valente. Inclinei-me devagar, vagaroso o suficiente para me tornar ameaçador, e, com cuidado, sussurrei-lhe ao ouvido da maneira mais assustadora que consegui: “Vais morrer”. A sua expressão transformou-se num misto de confusão, descrença e medo. Afastei-me. Sem sofrer nenhum contra-ataque inesperado, saí do comboio; nem lento nem rápido, sempre de olhar pregado no rapazola. O comboio acelerou. Fiquei especado a vê-lo partir como um maníaco. Partiu.
Olhei em volta. Dirigi-me ao banco da estação, sentei-me, abri o livro na página em que o deixei e segui com a leitura (Não gosto de deixar capítulos a meio). Surgiu uma das grandes frases do livro: “…Ao vencido ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas…” — Sorri. Terminei o capítulo. Mais uma vez, olhei em redor: nada, não se via ninguém. Fechei o livro; levantei-me; pousei o telemóvel do fedelho no banco; e passeei até ao “Cais Sodré”.