10/05/2025
Guerra e apagão
Quando este texto for lançado, já o apagão se terá tornado num tema esgotado. Os românticos terão romantizado cada detalhe das 9 horas de escuridão e os homens sérios terão tecido todas as críticas possíveis ao governo por ter deixado o país ir abaixo com os cabos de bateria em Espanha. Também vários humoristas terão dado os ares da sua graça sobre o acontecimento, fazendo troça de comportamentos estúpidos ou gerais da população, face ao cenário catastrófico que foi viver uma tarde sem aparelhos eletrônicos. Igualmente aos conspiracionistas não faltará uma opinião sobre o Putin ter organizado um ciberataque para destruir a Europa; com início em Portugal, como é óbvio, por este ser o país mais potente e ameaçador do continente. Inclusive o meu cão terá partilhado na sua conta do X, o seguinte texto: “Ão ão ão. Ão ão, ão. Ão ãooouuuuuuuu. Ão.” — que, na minha opinião, se trata de uma excelente reflexão sobre o assunto da imigração e a sua relação com o apagão.
Posto isto, sobra-me pouca coisa a dizer sobre o apagão, contudo, tenho algumas coisas a dizer sobre paintball. A primeira é: como é que é possível se gostar de tal atividade? Paintball é capaz de ser das práticas mais horríveis e sofridas em que participei durante toda a minha existência — e olhe que uma vez assisti a um episódio completo de ‘A Máscara’. Confesso que é daquelas atividades que só se descobre que é má depois de a fazer. Até lá pensa-se: “Isto deve ser mesmo giro. Vamos experimentar.”. De repente, são duas da tarde em pleno verão; está vestido como um mecânico do Barrunchal; equipado com um capacete do Darth Vader, mas pior; a preparar-se para tentar dar com balázios nos seus amigos, enquanto esses supostos amigos, lhe tentam espetar com balázios. Que divertido.
O monitor faz as equipas e profere as regras — ditar regras a um bando de anarcas é como tentar explicar o Existencialismo a uma gaivota. Foi nesta parte que comecei a desconfiar que não fui talhado para disparar bolas de gelatina abastecidas de aguarela contra outros adultos, Isto porque, enquanto a preocupação dos outros era decidir que estratégia adotar para atingir o maior número de indivíduos, a minha preocupação centrava-se em decidir que estratégia adotar para ser atingido o mínimo de vezes possível.
Mas a pior parte é quando o jogo começa. Às tantas, dá por si, agachado atrás do mesmo barril, há quinze minutos, sem conseguir ver nada porque a máscara embacia mais do que um Opel Corsa de 99 no Inverno, mas não pode tirar a máscara porque, para além de ser contra as regras, tem medo de levar com uma bala na pálpebra e nunca mais assistir a um pôr-do-sol. E fica ali, com os ultravioletas a bater-lhe nas costas, a suar dos ombros e dos olhos — o que acaba por ser positivo porque ajuda a disfarçar as lágrimas; à espera de levar com uma bola de tinta no joelho, enquanto ouve o som das balas a sobrevoarem-lhe constantemente, porque toda a sua equipa “morreu” e agora tem cinco soldados adversários, cujo a única missão é matar o mecânico inimigo.
No fim das batalhas, um dos seus amigos diz “Temos de voltar cá” e o leitor limita-se a sorrir porque sabe que nunca mais voltará a falar com aquele lunático que infringiu a distância de segurança e lhe deu três tiros nas nádegas, à queima-roupa.
“Mas Salvador, paintball não é nada disso. É um jogo que promove a habilidade com a arma e a cooperação entre amigos num clima competitivo, proporcionando momentos muito divertidos.”
Sim, sim, leitor — e o apagão foi um alívio divino, um acontecimento muito positivo pois promoveu o convívio entre determinados adultos com os seus filhos pequenos em parques infantis e retirou a população da frente dos ecrãs (coisas que só podem ser feitas quando tal “fortuna” acontece).