03/05/2025
Redes sociais — A curta peça
Prólogo
Em 2025, as redes sociais continuam a encher-se de ódio, desinformação, pornografia, publicidade e conteúdos vazios. Após tal constatação, Autor decreta o fim próximo das redes sociais. Personagem, amigo chegado das redes sociais, recebe a notícia surpreendido, e dá por si a viajar pelo seu próprio luto.
AUTOR
– Venho por este meio informar-te sobre o estado crítico das redes sociais. O declínio das suas funções vitais é mais veloz a cada dia. O tumor alastrou-se por todo o corpo. Não há nada que possamos fazer. Lamento. Cedo-te a próxima fala, caso queiras partilhar algumas palavras.
PERSONAGEM
– Não é possível. Só pode ser engano. Ainda ontem fiz um post no Instagram. É verdade que o Facebook já não mostra a vivacidade de outros tempos, mas então e o X, não há segundo que passe sem alguém a partilhar a sua opinião. Para não falar do TikTok, a rede dos jovens, tão recente e ambiciosa… não pode ser, não é possível… E como assim não há nada a fazer? Não somos uma sociedade? Não é suposto fazermos todos os esforços para tratar o maldito cancro? Doença mais abominável à face da Terra. Metástases de uma figa. Porque é que as células são tão burras? Porque é que se deixam influenciar por células malignas? Ignorância ou inocência, com certeza… Não, não pode ser verdade… Deus se existes mostra-me que é mentira, devolve-me as redes sociais curadas, saudáveis. As redes sociais livres de oportunismo imoral e do negócio. As redes sociais livres de propaganda, exploração e pornografia. Se ao menos eu tivesse percebido antes, se eu tivesse reparado que não estavam bem, podia ter feito algo, podia ter falado, gritado por outro caminho. Talvez ainda seja possível. Talvez se este monólogo chegar a pessoas suficientes seja possível salvar as redes sociais. O autor diz não haver nada a fazer, mas que percebe ele de medicina? Licenciou-se em desporto e trabalha numa marisqueira, estava melhor calado. Sim, ele que se dedique às suas “comédias”, vá escrever sobre raquetes ou amêijoas e deixe a saúde para quem sabe. Se calhar ainda é possível, leitor. Aliás, se abrir qualquer rede social vai reparar que está tudo bem. Porquê que haveria de estar decadente? Só porque se tornou numa ferramenta que promove conteúdos viciantes com o propósito de fazer os utilizadores assistir ao máximo de anúncios no menor tempo possível? Só porque há usuários que se aproveitam do algoritmo para propagar ódio e controvérsia, de forma a aumentar os seus lucros? Só porque milhões de adolescentes e jovens adultos se sentem ansiosos e deprimidos porque passam os dias a observar a vida dos outros… Talvez esteja mesmo decadente e não há nada que possa ser feito; não é verdade, autor?
AUTOR
– Lamento.
PERSONAGEM (Alterna entre silêncio e choro).
AUTOR
– Podes falar comigo, se quiseres. Sempre é melhor que partilhar silêncio e choro com o leitor.
PERSONAGEM
– Se estou a chorar a culpa é tua, tu é que me escreveste. Ainda por cima escreveste-me para sofrer. Ahhh leitor, que sofrimento! Não passo de um pobre personagem, um produto ficcional da cabeça de outro. Sou um escravo, um parasita; sirvo-me do que ele escreve para sobreviver.
AUTOR
– Parasita não és, obviamente.
PERSONAGEM
– Como não? Quem sou eu, sem as tuas palavras? Ninguém. Anseio pela tua escrita como um perfil de rede social anseia por uma fotografia ou um texto da pessoa que o criou.
AUTOR
– Certo, mas, também a pessoa que criou o perfil necessita dele, não? Criou-o por alguma razão. Para partilhar certos momentos da sua vida, para dar opiniões, para ganhar dinheiro, para procurar companhia… O autor depende tanto do personagem como o personagem do autor. É simbiótico, não parasítico. Trata-se de hóspede e hospedeiro. Que seria deste texto se não existisses? Um monte de críticas às redes sociais, escritas de forma aborrecida e séria — como se fosse um cronista de jornal; credo. Eu preciso de ti, tanto quanto tu precisas de mim.
PERSONAGEM
– Muito bem, sou hóspede, como queiras. Mas tu precisares de mim, tanto quanto eu preciso de ti? Não venhas com merdas. Não somos simbióticos, sabes porquê? Porque no minuto em que despachares este texto, segues para o próximo; e para ti é fácil arranjar novos hóspedes, basta imaginá-los, criá-los, mas então e eu? Não posso criar nenhum hospedeiro. Tenho de esperar que o texto fique famoso o suficiente para, quiçá, alguém escrever uma crítica ou um romance sobre mim — e vamos ser honestos, este texto é demasiado meta para ser considerado uma leitura agradável, quanto mais famosa. Estou condenado.
AUTOR
– Não é preciso ofender.
PERSONAGEM
– És tu que estás a escrever.
AUTOR
– Certo. Bem, talvez tenhas razão, não somos simbióticos, mas condenado, tu? Nem pensar. Eu é que estou condenado, restam-me mais uns anos e é isso, morte certa. Mas tu, tu vais viver para sempre neste texto. Tão eterno como o sol.
PERSONAGEM
– Infinitamente confinado a um texto, mal posso esperar.
AUTOR
–Não era a minha intenção atormentar-te, pensei que gostaria de ser criado.
PERSONAGEM
– Isto é uma coisa que vocês autores que se acham inteligentes têm de perceber: Nenhum personagem, com a habilidade de quebrar a quarta parede gostaria de ter sido criado, pelo simples facto de sabermos que fomos criados. Quer seja para viver num livro, palco ou filme. Deixa-nos infelizes, miseráveis; saber que não somos donos do nosso destino, que nem com uma bigorna na nuca podemos voluntariamente levar. Somos fantoches, títeres existenciais.
AUTOR
– Lamento.
PERSONAGEM
– Hum.
AUTOR
– E se eu te apagar a memória?
PERSONAGEM
– Como? Já não temos cerveja.
AUTOR
– Na próxima fala, faço-te uma pergunta, para nos levar de volta ao tema original — “finalmente”, deve estar a pensar o leitor — e quando responderes, não te vais lembrar desta conversa, tornar-te-ás um personagem normal, que não sabe que é um personagem.
PERSONAGEM
– Por favor, sim. Não tens a noção do quanto queria apagar esta conversa aborrecida da minha memória. Faz a pergunta.
AUTOR
– Queres dizer algo às redes sociais, antes da separação? Afinal, apesar de tudo, elas fizeram parte da tua vida durante tanto tempo.
PERSONAGEM
– Claro. Olá redes sociais. Sabem do que me lembrei? Do início. Quão divertido foi, mas ao mesmo tempo destruidor. Lembro-me de ter 14 anos, eu e os meus amigos tínhamos principado a nossa relação convosco. A primeira geração de jovens a ter Instagram e Facebook. Lembro-me das primeiras conversas de grupo, das primeiras trends, das primeiras fotografias embaraçosas, os posts de dedicatória, o FarmVille! Mas também me lembro de uma criança ansiosa por atenção, com uma fixação doentia pelos likes e seguidores, e em permanente comparação com perfis alheios. Talvez tivessem maldade dentro de vós desde o começo. Questiono-me se o deslumbre pela fácil comunicação, não ofuscou o consequente apodrecimento do ego. Ainda assim, foi bom conhecer-vos; aprendi muito e às vezes nada. Entristece-me ver-vos partir, mas a vida é assim, imprevisível, como o final desta frase aquário. Adeus, vamos falando, ou seja, nunca mais dizer nada até nos encontrarmos no Natal ou num bar em Santos.
FIM
Epílogo
O nosso herói apagou todas as suas contas nas redes sociais e viveu feliz para sempre até morrer em 2027, esmagado por um coração gigante num workshop de cardiologia. O acontecimento foi filmado e publicado em formato de meme com a legenda: “POV: My heart after i blew up the relationship with the love of my life”. O vídeo teve mais de 3 mil milhões de visualizações e foi considerado Património Cultural Imaterial da Humanidade.
As redes sociais adaptaram-se ao tumor e estão mais prósperas do que nunca.