26/04/2025
Os meus professores
Quando somos jovens, olhamos para os professores como inimigos, adultos autoritários postos no mundo para nos infernizar a vida com exercícios e matérias. De repente, quando alguns dos seus conselhos, ensinamentos ou atitudes se elevam à superfície do nosso cérebro como uma baleia num oceano, ao avistarmos o espiráculo emergente de um mero professor romper-nos o mar de ideias; só aí descobrimos que eles foram importantes.
A minha mãe costumava falar dos seus professores com saudade e admiração, nunca percebi porquê. Hoje, porém, também tenho professores que idolatro. Depois de, no 12ºano, ter chumbado a Matemática por desinteresse, a professora Maria José, no ano seguinte, não deixou de caminhar até ao fundo da sala com as suas pernas curtinhas para conversar comigo. Mal a sentia a aproximar-se, escondia o telemóvel no estojo, pegava na caneta e sorria-lhe, confiante da minha discrição; como se a professora que ensina fórmulas e equações matemáticas fosse uma parvinha ingénua e não soubesse que tinha estado a jogar ‘Candy Crush’ desde que terminei de copiar o sumário. Ainda assim, chegava-se a mim, perguntava-me como estava, questionava-me sobre o meu futuro, mas sem qualquer arrogância, perguntava com preocupação, no sentido de ajudar. Não desistiu de mim, como desisti da disciplina dela; compreendeu que o seu trabalho vai além de ensinar cálculo combinatório e derivadas. Por isso, estou-lhe para sempre grato.
Antes de partir para os meus 16 destinos diferentes de férias de Verão — como qualquer beto-descendente — despedi-me da professora Andreia de lágrimas nos olhos. Também ela lacrimejava ao ver a turma do 4ºB, que lecionou por quatro anos consecutivos, seguir para o recreio dos crescidos. Relembro as aulas da professora Andreia com muita alegria, aulas em que havia espaço para a criatividade e brincadeira, menos quando era para ouvir e aprender. Fui condecorado como ‘Bomboca’, “O meu bomboca” como dizia a professora — nome que fazia jus às minhas bochechas do tamanho de planetas. Até hoje tenho amigos que me chamam de ‘Bomboca’, o que se calhar para alguns seria motivo de rancor, mas para mim é de orgulho. Obrigado professora, pelo cognome e pelas saudades.
Também na minha memória há espaço para frases simples de professores por quem não dava nada. No secundário tive as primeiras impressões da disciplina de Filosofia. Um professor excêntrico chamado António encarregava-se de nos ensinar, por vias alternativas, o “amor pela sabedoria”. As aulas transformaram-se em conversas sobre temas prosaicos, depois associados à matéria e os testes eram feitos com opção de consulta — nesta disciplina estava facilmente garantida a boa nota. Assim foi.
A resolução dos meus testes era uma mistura de excertos do manual com respostas copiadas da colega de carteira. Contudo, houve um teste em que a questão final era de espírito crítico, pedia para dar a minha opinião sobre um dilema filosófico. Escrevi por palavras minhas pela primeira vez naquela disciplina. Semanas depois, entrega do teste. O professor chamou o meu nome e levantei-me para recebê-lo. Ao agarrar a minha prova, o professor olhou para mim e sentenciou: “Nunca percas este humor com que escreves”. Esbocei um sorriso associado a um sentimento de êxtase. Parece pateta, mas para um jovem desorientado e escudado na indiferença, aquelas sete palavras, aquela simples nota de rodapé, marcou-me de tal maneira que mal acabei o secundário, decidi licenciar-me em desporto — ser jovem é duro, leitor (Já dizia o Rui Veloso), são muitas decisões para o dobro das incertezas; felizmente a frase do professor António não deixou de ecoar na minha cabeça e, graças a ela, escrevo este texto.
Há algo de muito injusto em ser professor, ter de ensinar miúdos que estão presentes na sala de aula por obrigação e na maior parte das vezes sem vontade é tarefa de missionário. No entanto, cabe aos professores fazer com que as crianças ganhem gosto por aprender. Há uns tempos fui jantar com a minha antiga turma do 3ºciclo; à professora Natália, nossa diretora de turma, não lhe faltou o convite. Professora que cuidou de uma turma durante 3 anos, de forma brilhante: com carinho, preocupação e sentido de humor. Tenho uma admiração especial pela professora Natália, principalmente, porque costumava rir-se das minhas piadas — talvez Deus tenha colocado a professora Natália no meu caminho para que me tornasse comediante; se for o caso, não deixa de ser enfurecedor, sabendo que poderia ter colocado uma médica ou advogada.
Os meus professores fizeram parte da construção daquilo que sou hoje e tal como os mortos de Manuel António Pina, também “eles me pertencem, tanto quanto provavelmente eu lhes pertenço”.