Irrelevância Crónica

19/04/2025

O jovem contemporâneo que agrediu um cego

Imagina, eu não queria estar a bater no ceguinho, ‘tás a ver? Mas, imagina, se o ceguinho se pôs a jeito para levar nos cornos, ‘tás a ver? Porque, imagina, eu sou uma boa pessoa, mas há merdas que não posso deixar passar, ‘tás a ver?  Não me interessa se é cego; até podia ser coxo, tás a ver? Não venhas para cima de mim atrofiar por eu dizer, “imagina”, ’tás a ver? Claro que eu tenho de dizer “imagina”, porque senão depois acontece, o que acontece com muita gente inimaginativa; quando eu lhes pergunto se “‘tão a ver”, eles, imagina, respondem-me que não, ‘tás a ver?

 E eu acho que é mesmo muito importante as pessoas ‘tarem a ver, ‘tás a ver? Porque, imagina, a visão é super importante para perceber as coisas, tás a ver? Eu li um artigo, ou melhor, vi uma mulher a explicar um artigo no TikTok, que dizia que, imagina, a visão é o sentido mais importante de todos, ‘tás a ver? Imagina, mais importante que o sentido obrigatório, tás a ver? Agora pensa comigo: Imagina ter uma conversa e ninguém te perguntar se tu ‘tás a ver, ‘tás a ver? É completamente imaginativamente doentio. Porque eu preciso de ver as coisas, tás a ver? Mas, imagina, acima de tudo, preciso que alguém se certifique de que eu estou a ver as coisas, ‘tás a ver? Porque, imagina, eu tenho déficit de atenção e, imagina, às vezes é muito difícil para mim apanhar as coisas, ‘tás a ver? 

Por isso é que, imagina, eu não curto falar com cegos, ‘tás a ver? Imagina, não tenho nada contra eles, mas, imagina, acho que lhes falta bué imaginação, ‘tás a ver? Porque tipo, imagina, se eu estou a falar com uma pessoa, quero que ela “‘teja a ver”, tás a ver? E, imagina, os cegos nunca ‘tão a ver, tás a ver? E, imagina, é muito chato para mim, porque, imagina, estou a esforçar-me para que uma pessoa imagine e ‘teja a ver, e, imagina, a pessoa não vê um pão d’alho à frente, ‘tás a ver? E tu tens sorte de eu te estar a avisar disto, porque eu tive de descobrir da pior maneira, depois de bater num invisual.

Não foi nada de grave, tás a ver? Imagina, um gajo estava numa festa, à conversa com outro gajo, de óculos escuros, por simpatia, e, imagina, esse gajo começa a acusar-me, a mim, de ser inapropriado, ‘tás a ver? E eu nessas merdas sabes como é que eu sou, disse-lhe mesmo: “Oh André, imagina, ‘tás a ver se arranjas problemas, é?”, e ele, imagina, sem me olhar na cara, diz: “Eu não estou a ver nada”. E, imagina, eu aí passei-me dos cornos, ‘tás a ver? Porque, imagina, nós estávamos a conversar há 43 minutos, eu já lhe tinha perguntado algumas vezes, se ele “‘tava a ver”, ‘tás a ver? E o gajo vira-se para mim, passado quase uma hora de tertúlia, e diz que não “‘tá a ver nada”. Imagina, este gajo só pode estar a gozar comigo. ‘Tá ali um gajo a dialogar de forma eloquente para que a outra pessoa imagine, com todo o pormenor, as curvas das gajas do meu Instagram, e o gajo diz que não ‘tá a ver nada? Imagina, é gozar com a cara de um gajo. E, imagina, eu aí disse-lhe mesmo: “Oh André, mas tu tás crazy laughing com a minha face? É que eu rebento-te já aqui”, e ele “Desculpa, não percebi, o que é que é “crazy laughing na minha face?”, e eu disse-lhe “Imagina, é tipo se ‘tás a gozar com a minha cara, tás a ver?”, e ele repetiu “Eu não estou a ver nada”, e eu aí, passei-me a dobrar, ‘tás a ver? 

Agarrei nele pelos joelhos, ’tás a ver? E, imagina, o gajo começou a tentar bater-me com a bengala, mas falhou tudo, devia ter falta de pontaria ou assim. Então, imagina, eu atirei-o ao chão, tás a ver? E depois sentei-me em cima dele, prendi-lhe os braços, dei-lhe uma chapada na cara e disse “Não é correto gozar com os outros, ‘tás a ver?” E ele gritou “Eu não estou a ver nada!” e eu gritei “Porquê?”, e ele “Porque sou cego”, e eu “Como assim, és cego?” e ele suspirou e disse “Imagina, nasci sem conseguir ver nada, ‘tás a ver?” E eu aí disse-lhe mesmo: “Oh André, imagina, já podias ter dito, tás a ver?”. 

 Nisto, eu largo-lhe os braços e, imagina, ele agarra-se à minha cara e beija-me na boca, ‘tás ver? Dois segundos depois afastei-o e disse-lhe mesmo “Oh André, imagina, isto nunca vai resultar, ‘tás a ver?”, e ele aí diz “‘Tou a ver”. E eu fui-me embora porque, imagina… ‘tás a ver?

Estrague o dia a mais alguém.
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