Irrelevância Crónica

12/04/2025

Bebo, logo existo

Descartes, um famoso malabarista e polícia à paisana do século XVII,  constatou: “Penso, logo existo”. Nos dias que correm, a frase perdeu a força. Para os meus amigos apenas serve a variante “Bebo, logo existo”. Não interessam ideias ou opiniões, não há curiosidade por conhecimento nem por temas relevantes, ninguém quer debater conceitos ou filosofias a única coisa importante é alcoolizar.

Estar com amigos serve de pretexto para tirar proveito do etanol. Santo etanol, pois sem ele as interações tornam-se aborrecidas. Quem quer conversar arranja uma namorada, entre amigos é para rasgar.

 A amizade não tem preço, mas ai de si, leitor macho, que num convívio entre amigos beba uma frize limão. Ai de si, que diga “hoje não bebo porque estou a antibiótico”. Ai de si, que se fique pelas duas minis porque vai conduzir. Eu que o veja a cometer absurda atrocidade, leva logo com um cântico de incentivo ao pénalti para ficar esperto. 

Os homens não se medem aos palmos, medem-se aos litros de álcool ingerido. Homem que é homem bebe até cair, sem deixar cerveja por virar ou whisky por engolir. Homem que é homem não ‘bebe um copo’, ‘vai para os copos’. Homem que é homem pega no carro embriagado depois da discoteca e, se ficar sem carta, adormecer ao volante, escalar uma rotunda ou espetar o carro numa árvore, tanto melhor — terá histórias épicas de guerra para contar. 

O homem da minha geração não pensa, existe — uma existência tão fugaz e irrelevante que me questiono se não será a melhor maneira de viver. Há uma música dos Wet Bed Gang que entoa “Perspetiva dela é que eu ’tou-me a matar mais cedo // Minha perspetiva é que eu ’tou a viver mais rápido”. Hoje em dia a perspetiva comum é “viver mais rápido”.  Há uma urgência de esgotar a vida como se fosse papel higiénico durante a pandemia. Não há nada de incorreto nisso, mas é preciso considerar que há quem não queira viver como se fosse um podcast em x2.

O meu amigo mais interessante não bebe álcool — não sei como. Adjetivo-o de mais interessante porque, para além da sua escancarada figura irreverente, estuda, interessa-se por assuntos e pensa, pensa muito (às vezes demasiado). Aprendo sempre qualquer coisa quando estou com ele. Não bebe álcool, mas podia beber, é-me indiferente. O que importa é que esteja bem. Já alguns amigos não pensam assim, acham-no entediante, uma seca — não bebe, não existe.

 Para quê ser desrespeitador das vontades do amigo? Porquê pressioná-lo ou desvalorizá-lo por não se enfrascar numa sexta-feira à noite? Creio que seja porque beber sozinho não tem graça. Tornou-se uma condição, se um emborca, emborcamos todos e quem não emborcar é gay — e ser chamado de gay pelos amigos é coisa de meter medo ao susto a nós heterossexuais; magoa muito.

No outro dia fui sair à noite para uma discoteca. Bebi cerveja, bebi shots, bebi vinho, bebi cocktails — água, nem pensar, isso é para os fracos. Diverti-me à brava: cantei e dancei com os meus amigos, encontrei pessoas do passado, posei para fotografias, beijei a pessoa que amo e nunca parei de beber. Parar para quê? Estava tudo a fluir tão bem. Às cinco da manhã, o meu estado era de tal forma lastimável que se tivesse passado um pastor com um rebanho de noventa e três castores ao meu lado, nem teria dado por isso.

No fim da madrugada, sai da discoteca com a minha namorada e uma amiga, elas preparavam-se para chamar um TVDE, mas eu, homem viril e confiante, não achei boa ideia, estava capaz de conduzir. Primeiro, discussão, berros e escândalo. Depois, desapontamento, desilusão e raiva. No dia seguinte, vergonha, remorsos e agonia. O descontrole é problema meu, mas a ideia de aguentar o álcool melhor que os outros, o orgulho de achar que se está bem para conduzir depois de beber desenfreadamente, esse sentimento é de homem — homem que não pensa, só existe.   

A autodestruição tornou-se cool e o conhecimento aborrece, talvez porque mais vale ignaro e feliz do que sábio e entorpecido. Mas chega de castigo — hoje é sábado, vejo-o ‘nos copos’. 

Estrague o dia a mais alguém.
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