05/04/2025
Sentimento muito essencial
«A inveja é um sentimento muito feio», este é um dos versos mais famosos do rapper Boss AC, eternizado na letra da canção “Hip Hop (Sou eu e és tu)”. Executei uma sondagem meticulosa sobre a concordância do público com o que foi escrito por Boss AC. Feita a pergunta «Concordam com a mensagem do verso “A inveja é um sentimento muito feio”?», num grupo de 14 pessoas, cheguei à conclusão de que os meus amigos não lêem as minhas mensagens.
De qualquer das formas, a sondagem não era assim tão importante. Serviria apenas para demonstrar o quão especial é o meu raciocínio, ou seja, para elevar o meu ego. Fica para outra ocasião.
Enfim, iniciemos pelo meu ângulo, obviamente oposto ao do autor do verso; aliás, se não o fosse, que interesse teria este texto? “Concordo com o Boss AC, a inveja é mesmo um sentimento horrível, fim”. Sem conflito não há interesse, sem interesse não há leitor, sem leitor não há sucesso — e por aí a fora até chegar a “sem propósito não há vontade de viver e sem vontade de viver…”; mas esqueçamos agora estas parvoíces, ia-lhe a contar o porquê de não achar a inveja “um sentimento muito feio”.
A razão é simples: todos nós sentimos inveja. Inveja é um sentimento tão comum como a alegria, tristeza, desconfiança, fúria, confusão, e todos os outros. Além disso, é inevitável. A inveja atinge-nos sem nenhum pedido da nossa parte. Não é como se eu olhasse para o João Miguel Costa, um jovem comediante autor de uma recente e muito engraçada rubrica na Mega Hits chamada ‘Se é para isto não contem comigo’, e pensasse “Bem, agora sentir uma invejazinha é que era”. Pelo contrário, o sentimento é inato, surge. No fundo é um bocadinho como Deus: “Gerado, não criado, consubstancial ao pai”.
A inveja não é feia nem bonita, mas um sentimento neutro, sem moral. Trata-se simplesmente de desejar algo que outra pessoa tem. As ações que tomamos consoante esse sentimento, essas sim, poderão ser feias — terriveis até — ou belas. A culpa está na reação ao sentimento e não no sentimento. Olhe para mim, por exemplo, leitor; roo-me de inveja do João Miguel Costa e decidi elogiá-lo no parágrafo anterior. Já viu que pessoa ótima? (Aqui está a tal “ocasião”, pela qual esperava).
Podia ter optado por dizer “ele é demasiado atlético para ser comediante”, ou, “a sua rubrica só funciona porque a Madalena Costa e a Maria Petronilho se riem de tudo”, ou, “sendo ruivo fica mais fácil ter piada”, ou mil e uma outras justificações estúpidas para o seu sucesso. Porém, como sabe, sou uma pessoa tão extraordinária que não o fiz. (As “ocasiões” chovem neste texto, mas trazem ironia, leitor; esqueça, prossigamos, não me cabe a mim a responsabilidade de sugerir-lhe como interpretar).
Querer o que os outros têm não está errado, diria até que é o que nos move a fazer mais. Se quer uma coisa que outra pessoa conseguiu, abrace a inveja. Em vez de falar mal dessa pessoa, reconheça o seu valor, procure conversar com ela, aprender, criar laços; quem sabe o dia de amanhã? Quem sabe se o João Miguel Costa um dia lê este texto e pensa em contratar-me para escrever para ele? Atente nas minhas palavras: Viva a inveja oportunista, até nunca, conformidade invejosa.
A verdade é essa. Se há sonho, se existe ambição, então existiu uma inveja, uma admiração. Quantos músicos decidiram ser músicos depois de terem assistido aos seus ídolos em palco, ou seja, por cobiçar a vida do outro? Milhares — pelo menos essa premissa é utilizada numa excessiva quantidade de filmes. A inveja move-nos, tenho dito. Talvez o ideal fosse que a paixão nos movesse, ao invés da inveja, mas não se pode ter tudo. Primeiro conhecemos e invejamos, depois, se correr bem, apaixonamo-nos e nunca mais largamos.
O primeiro espetáculo de stand-up ao qual assisti foi do Salvador Martinha, na abertura do ‘World Press Cartoon’, deve ter sido por volta de 2013. Tudo naquela hora foi fascinante: As piadas, os risos — e foi isso, leitor, o Stand-up não passa muito de piadas e risos. Marcou-me de tal maneira que, enquanto o Salvador atuava em palco, a inveja atuou em mim.
Também na escola costumava ser uma criança sossegada, atenta e disciplinada. Porém, quando mudei de escola, no sétimo ano, conheci colegas que mudaram a minha vida. Conheci um colega que era engraçado, muito engraçado, fazia rir a turma toda. Em adição, fez-me sentir outra coisa: inveja.
Hoje não minto ao afirmar que esses dois momentos em que invejei gargalhadas causadas por outros, foram propulsionadores de todas as frases escritas neste espaço — o que entristece, tendo em conta o divertimento pobre aqui servido.
Sobre o sentimento muito essencial, não tenho mais nada a relatar. Não obstante, para finalizar, deixo um desafio ao Boss AC. Boss, se tiveres coragem, responde a este meu argumento com uma diss track. Com vontade, ainda se inicia uma battle histórica, tão lendária que causará inveja a muita gente — quem sabe, gente que venha a dedicar-se ao rap ou à crónica trapalhona e autocentrada.