Irrelevância Crónica

29/02/2025

Ser português

O Mário é o concorrente mais querido de todos os portugueses”. Foi esta a frase que ouvi Cristina Ferreira pronunciar num daqueles programas científicos; aqueles onde se junta várias pessoas interessantíssimas numa casa e analisa-se o comportamento e interações entre cada uma delas. Pelos vistos, devo ter mudado de nacionalidade, talvez me tenha tornado checo sem dar por isso. Acho estranho porque, normalmente, só costumo mudar de nacionalidade quando sou abordado por cavalheiros a vender cocaína no bairro alto:

– “Coke? You want some coke?” – Dizem os sujeitos portugueses empreendedores.

-“I only drink Pepsi, sorry.” – respondo em personagem.

Não sei quem atribuiu à Cristina o poder para falar por todos os portugueses, mas para a próxima avise-me, se faz favor, para eu estar preparado. Não vá alguém abordar-me na rua e questionar-me sobre o meu apreço pelo “Mário da Casa dos Segredos” e eu acabar a fazer figura de parvo por não saber quem é o senhor por quem, claramente, nutro um enorme carinho. 

Os políticos são outros, falam muito em nome de todos os portugueses. Não me recordo de lhes ter dado autorização para me incluírem nos seus discursos. Aliás, peço-lhes que ao formarem frases como “Os portugueses estão assustados.”, não o façam. Optem antes pela seguinte: “Os portugueses, com exceção de Salvador Saldanha, estão assustados.” a não ser que se refiram aos preços das casas em Lisboa, aí, dou permissão para me incluírem. 

Isto aplica-se, também, àqueles jovens que dizem coisas como “toda a gente faz”. Como assim toda a gente bebe três shots de tequila, de seguida, depois de gregar nas costas de uma jovem mulher na discoteca, para voltar a restabelecer o álcool desperdiçado no vómito? Eu não faço isso, Jorge, e não me deixa confortável que me incluas no teu discurso para tentar convencer o teu amigo Mateus, a seguir para coma alcoólico.

Costumam enervar-me estas generalizações. Porém, no outro dia deparei-me com uma generalização que me fez sentido; diria até que fez mais do que isso — abriu-me os horizontes, alterou-me a perspectiva. Li uma publicação no Expresso acerca de uma entrevista feita a Daniela Ruah num podcast com um nome desinteressante — fazendo jus à maioria dos podcasts

«O meu marido pergunta-me ‘Porque é que estás a gritar?’. Não estou a gritar! Sou portuguesa!» lia-se na publicação. Realmente consigo entender. Como sabe, os portugueses falam todos como se tivessem engolido um megafone, que por sua vez engoliu o sistema de som do palco principal do Nos Alive. Existem várias provas disso, basta colocar cinco amigos a conversar à volta de uma mesa para que se inicie a chinfrineira. Responder de forma mais rude aos progenitores também contribui. Assim como encontrar um velho amigo na rua,  atender o telemóvel no comboio, dar indicações a um turista, ou, abrir a boca, no geral. Tudo isso dá azo a algazarra, característica fundamental na vida de um bom português. 

E se quisermos ser minuciosos — e queremos sempre, leitor, porque aqui escrevem-se textos sérios, sem galhofa nem relaxamento — o volume da oralidade não é o único pauzinho de madeira pertencente ao leque das tipicidades portuguesas. Um leque é constituído por vários pauzinhos de madeira (Não esteja já para aí, todo pimpão, a achar que o pauzinho do leque pode igualmente ser feito de plástico; nesta rubrica pensa-se no ambiente, seu despreocupado — agora vou repetir-me, para que não perca o fio à meada). Um leque é constituído por vários pauzinhos de madeira e, tal como o leque, também o português é constituído por inúmeras manias.

 Por exemplo, as pessoas queixam-se muito de José Sócrates e de Ricardo Salgado e de tantos outros; tantos que se os especificasse preencheria uns dois parágrafos, cada um com vinte páginas. Queixam-se porque são corruptos, desonestos, ladrões, e tal, mas, se formos a ver bem, eles não são corruptos, nem desonestos, nem ladrões, nem tal; são portugueses. 

Depois, essa mesma gente, diz mal da Justiça portuguesa porque é lenta, branda e ineficaz. Porém, se observarmos detalhadamente, verificamos que a Justiça portuguesa não é nenhum desses adjetivos, mas sim, unicamente portuguesa.

 Os transportes, hospitais e escolas públicas são outros sofredores de inúmeras críticas indevidas. “Ah e tal, em Portugal é tudo mal gerido e funciona mal”, meus amigos, os serviços públicos não são mal geridos nem funcionam mal. São serviços portugueses, geridos por portugueses. E mais, invoco maldição a todos aqueles que consideram Portugal um país pobre e sem saída, pois enganam-se, Portugal não é nada mais senão português — até me arrisco a dizer que Portugal é o país mais português do mundo, se excluirmos a China e o Paraguai.

 Termino numa nota pessoal, pois não posso deixar de falar daqueles amigos que me questionam “Ah e coiso, porque é que o teu cão come tantas fezes?”. Para esses filhos da mãe intrometidos, respondo-lhes o seguinte: O meu cão não come fezes, seus ignorantes; o meu cão é orgulhosamente português, foda-se peço-lhe perdão pela minha transparência exibida com expressividade, isto é, com contornos de ordinarice; mas também, quer o quê? Sou português, foda-se!

Para concluir — no parágrafo anterior terminei, neste concluo — após refletir sobre este texto, gostava de aproveitar estas linhas finais para me redimir e pedir desculpa pela troça feita nos parágrafos iniciais, pois somente agora compreendi que a Cristina Ferreira, os políticos e o Jorge, não generalizaram sentimentos, problemas e assuntos, nem falaram em nome de toda a gente em vão; nada disso eles são, simplesmente, portugueses.

Estrague o dia a mais alguém.
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