22/03/2025
Crise de amigo com habitação
O meu melhor amigo, engenheiro informático, comprou uma casa. Foi o primeiro do nosso grupo de amigos. Apesar de estar muito contente por ele, não consigo deixar de pensar que a compra da casa — e digo o seguinte com nenhuma vaidade — se tratou de um ataque pessoal às minhas ambições.
Ele tem 24 anos, não necessitava de comprar uma casa, quis comprá-la, isto para — desconfio — me enviar uma mensagem. Mensagem que berra aos meus ouvidos: “Põe-te a pau. A vida não é só escrever textos engraçados”. Mensagem recebida, Martim. A vida trata-se de adquirir propriedade.
Infelizmente, essa mentalidade nunca quis prender-se à minha cabeça (Até as mentalidades são apreciadoras da sua liberdade, veja bem). Já nos tempos de estudante, pedia tudo emprestado: Canetas, lápis, borracha, folhas, apontamentos, cábulas, assinaturas falsas da minha mãe… Nunca fui um rapaz agarrado às coisas. A maior parte da minha roupa foi herdada dos meus primos. Bastava-me um par de ténis, um par de calças e uma sweatshirt que achasse fixe. Durante anos, fiz dessa combinação a minha vestimenta diária. Até no Natal, quando a minha carinhosa mãe me perguntava o que desejava de presente, respondia sempre o mesmo, “nada”. Nunca fui de querer, pois nunca precisei. Sorte a minha, azar do capitalismo.
Agora, deparo-me com a realidade da vida adulta — que, deixe-me dizê-lo, é uma chatice. Parece-me que ser adulto consiste muito em ganhar dinheiro para obter coisas. Quanto mais dinheiro se ganha, mais coisas se pode obter. Pois, como disse, nunca quis obter muitas coisas, pelo menos até ao meu amigo ter comprado uma casa. A verdade é que a notícia da casa despertou a minha adultícia, refrescou os meus desejos. Dei por mim ganancioso, a cobiçar a galinha da vizinha e o apartamento do amigo. Porém, não foi por muito tempo, acredite leitor, aliás, note que no começo do parágrafo seguinte já o apartamento está a ser alvo de rugosas pragas.
Raios partam a compra da casa. Não poderia ter esperado mais um pouco, o meu amigo? Mais dois ou três aninhos, serviriam bem. Mais três ou quatro anos de juventude. Quatro ou cinco anos (bissextos) de sair de casa às sete da noite de sexta-feira e só voltar, quase dois dias depois, para o almoço de domingo; de tardes inteiras, que se prolongam pela noite adentro, com partidas de sueca, cerveja e cigarros, em casa de colegas de faculdade; de engates de Verão, Outono e Inverno, deixando a Primavera reservada para os namoros curtos, também conhecidos como engates longos; de ressacas a uma quinta-feira, que obrigam a vestir a armadura pela manhã, e como guerreiros, bravos e disciplinados, sacrificadores do seu bem-estar, a marchar até à estação de comboios mais próxima, tudo para enfrentar os nada misericordiosos blocos de aulas teórico-práticas; de medos injustificados, sonhos genuínos e erros incontornáveis. Doze ou treze aninhos sem ter de se preocupar com IRS, Segurança Social, o preço do melão — que aumentou — e seguros: de vida, e do carro, e da casa, e de saúde, e do telemóvel, e do computador, e do lava-loiça, e do cão, e do cão de loiça, e do espírito santo, e de 2ª vida — não vá ocorrer-lhe uma ressurreição inesperada.
(Com tantos seguros, a perceção de insegurança entre os portugueses, deve ter atingido mínimos históricos, não?)
Mas não, o meu amigo escolheu o caminho egoísta, comprou casa. Comprou casa sem dar justificações a ninguém. Que indecência. Com uma assinatura, conseguiu lançar o pânico entre os seus amigos, aqueles cujo vencimento apenas lhes permite sonhar com uma habitação própria.
E pronto, cá estamos nós, os amigos, a recusar jantares e diversão porque poupamos para uma casa. Uns embarcam para o estrangeiro, por melhores oportunidades, ou mais dinheiro, como lhe preferir chamar; outros deixam de aparecer, cingem-se ao método casa-trabalho-casa, para poupar o máximo possível e um dia comprar um apartamento, onde poderão emoldurar fotografias dos momentos felizes que viveram nas suas secretárias e sofás; para não falar dos que veneram as criptomoedas, e depositam toda a sua fé nos seus investimentos — ao ponto de não falarem de outro assunto. Assim, a juventude do grupo se dissipa, lentamente, até só restarem sonhos arrasados, nostalgia e dois ou três amigos boémios a aguardarem por uma herança.
Bem sei que a vida não é só escrever textos engraçados (Tive um peixe que morreu, leitor, foi uma desgraça), mas para mim, entretanto, os textos engraçados bastam. Nos textos engraçados, posso imaginar a minha — se Deus quiser (muito) — futura casa, a minha casa de sonho, isto, sem ter a responsabilidade de possuí-la.
Imagino uma moradia muito alta, com três andares, colocada estrategicamente ao lado da casa do Martim, para que lá faça sempre sombra. Apesar da altura, seria acolhedora, nada de extravagante. Pintada de branco, com os portões e as portadas verdes, como na casa onde cresci. Um vasto jardim onde brotam árvores de fruto, estrategicamente inclinadas para cima da varanda do meu amigo, para que os insectos não lhe deem descanso, ao ponto de ser obrigado a colocar aquelas redes horríveis nas janelas.
Imagino, também, um terraço, onde bate o sol durante a tarde, para alegrar as minhas leituras. Terraço esse, estrategicamente instalado, para que da sua sala de estar, o meu vizinho amigo, consiga observar e invejar todo aquele calor e harmonia paradisíaca, mas também, estrategicamente situado, de forma a conseguir avistá-lo enquanto me observa. Pois, nesse momento em que me contempla, eu lançar-lhe-ei um olhar, o olhar de quem envia uma mensagem. Mensagem berrante aos seus ouvidos: “Põe-te a pau. A vida não é só programar sites”.
Não faça caretas, leitor púdico, ao invés perdoe a minha malícia, pois como sabe “a imaginação é a única arma na guerra contra a realidade”.
Em tom de despedida, para que não haja dúvidas ou se encerrem amizades, espero que, caso o Martim leia este texto, compreenda o humor nas minhas palavras e saiba que fico muito feliz por ele e pela sua, nova e arrebatadora, rede anti-insectos — presente embrulhado e oferecido por mim, ontem, dia em que compareci para jantar na sua, nova e devastadora, casa.