Irrelevância Crónica

15/03/2025

Falso magro

Após a minha inscrição no ginásio, foi me oferecida uma consulta de nutrição gratuita. Não sei se costumam fazer isso com todos os novos sócios ou se o fizeram por terem notado nas minhas mãos, que emanavam cheiro a molho Big Tasty.

De qualquer das formas, compareci na consulta. Comecei por falar sobre os meus objetivos, ao que a doutora me respondeu: “Sim, Salvador, mas não era sobre o seu sonho de abrir um restaurante de comida albanesa, que eu queria saber. Referia-me aos seus objetivos gímnicos.”. 

Eu pedi desculpa, falamos mais um pouco sobre os meus objetivos gímnicos e, por fim, ela pediu-me para tirar a t-shirt. Eu disse-lhe que também tinha sentido uma conexão, mas que preferia levar as coisas com calma. Ela disse “Não, percebeu mal, eu só quero medir-lhe a massa gorda.” e eu disse “Pois, doutora, mas é que eu não lhe chamaria de massa gorda”. Ela perguntou-me de que é que eu estava a falar. Eu respondi “Do meu pénis”, ela disse “Salvador, isto é uma consulta de nutrição, porque é eu haveria de querer medir o seu pénis?”, eu respondi-lhe “Não sei, doutora. Porque é que a galinha atravessou a estrada?”, e ela “O quê?”, e eu “Exato”.

 Ela olhou para mim, especada e em silêncio, por uns segundos, mas lá me safei do constrangimento de admitir o mal-entendido. Secamente, voltou a repetir “Dispa a t-shirt, se faz favor” e eu disse “Mas a doutora está de bata”. Caramba, maldita ambiguidade.

Depois de mais um olhar, desta vez mortífero, percebi que se referia à minha T-shirt. Eu despi-a — a minha t-shirt — e a sentença foi imediata: “Você é um falso magro”.

“Falso Magro” é um conceito muito engraçado. “Falso magro” é o “menos com mais” da nutrição. Toda a gente sabe que menos com mais, dá menos, assim como todos sabemos que “Falso magro” é uma maneira simpática de chamar as pessoas de gordas. Aliás, se a doutora tivesse dito “Você é um verdadeiro gordo” estaria a expressar exatamente a mesma coisa do que “Você é um falso magro”. Sinceramente, eu preferia ter escutado o termo “verdadeiro gordo”, é menos confuso. Ao ouvir “Você é um falso magro” não sei se devo ficar contente por não parecer gordo, ou, triste por ser gordo sem parecer.  

É curiosa esta escolha de palavras por parte dos nutricionistas. Até porque esta tática, de utilizar um diagnóstico juntando a negativa a um conceito positivo, apenas se verifica na nutrição. Quando o meu tio Ricardo, um homem de 47 anos com uma figura desportista, foi diagnosticado com cancro na próstata, o médico não lhe disse: “Pois é, Ricardo, você é um falso saudável”.

Acredito que a razão para a escolha de palavras mais simpáticas, por parte dos nutricionistas, esteja na diferença entre utilizar o verbo ‘ser’ e ‘ter’. Uma pessoa “é” gorda, mas uma pessoa não “é” doente (A não ser as pessoas fanáticas, essas são doentes por um clube, partido ou Pokémon Leaf Green para o Gameboy O melhor jogo de Pokémon de todos os tempos, diga-se de passagem). 

O que eu quero dizer é: Doença é uma condição, gordura é um traço característico. Contrair uma doença é algo objetivo, ser gordo, na verdade, é algo objetivo também, mas, para os mais sensíveis, é subjetivo. 

Eu, quando era miúdo, fui obeso. Posso estar a exagerar, mas, no mínimo, era muito gordo. Lembro-me de, várias vezes, dizer à minha mãe “Sou gordo” e ela responder “Tu não és gordo, és forte”. Aí, está o problema. As pessoas, como a minha mãe, acharem que ser gordo é algo subjetivo. Não é. Ser gordo, por definição, é apresentar excesso de gordura corporal. Portanto, sim, eu era gordo e não forte, como a minha mãe dizia. Forte é o John Cena ou o cheiro a vinagre. Eu era gordo. 

Graças à associação da palavra “gordo” a ideias negativas Bullying, preconceitos e Fernando Mendes enquanto sociedade, decidiu-se ostracizar a palavra “gordo”, que coitada, apenas fez o seu trabalho — descrever uma pessoa com excesso de gordura

Agora, tratamos as pessoas gordas como se fossem doentes. Assim como dizemos “O senhor tem um cancro”, dizemos “O senhor tem excesso de peso”. Tudo o que é mau não se é, tem-se. Ninguém é doente, gordo e feio. Tem se uma doença, excesso de peso e uma boa personalidade. 

Assume-se que o “ser” é identitário, mas, o “ser”, pode apenas representar uma característica descritiva. As minhas composições do terceiro ano, em que a professora pedia para nos autorretratarmos, mostravam isso mesmo:

 “Chamo-me Salvador e tenho 9 anos. Eu tenho olhos castanhos, cabelo loiro e sou gordo. Sou baixo e bochechudo. Apesar da minha mãe me dizer que sou lindo, sou feio, sei disso porque as raparigas da turma fazem questão de me manter informado. Sou bom aluno, o que me torna ainda menos atraente aos olhos das raparigas, que preferem os engraçados e bonitos aos gordos e inteligentes. Sou invejoso porque gostava de ser engraçado e bonito, como o Lourenço, que já teve treze namoradas. Eu nunca tive nenhuma. Sou virgem, nasci a 29 de Agosto. Tenho a aparência de um Bulldog à beira de um enfarte, segundo o meu pai. Sou asmático e alérgico a várias coisas. A Maria, uma vez, num momento a sós, disse-me “Até gosto de ti”, mas, enquanto o dizia, eu espirrei-lhe nas pálpebras, e ela retirou o que disse. Sou simpático, porque apesar de todos gozarem comigo, não perco o sorriso, mesmo depois de as miúdas terem dito que o meu sorriso é repugnante, lhes dá vontade de vomitar, e que preferem, mil vezes mais, o corpo sensual do Lourenço. Sou alegre e brincalhão, exceto quando, às três da tarde,  as miúdas me roubam a bomba de asma e a escondem dentro do ecoponto amarelo, para fazer rir o Lourenço. Tenho a pele cor de pele, mas gostava de ser negro, para poder acusar os meus colegas de racismo, inclusive o Lourenço. Infelizmente, como somos todos cor de pele, o que eles me fazem é apenas considerado bullying, algo mais tolerável e que ajuda a desenvolver o carácter, segundo o meu pai. Quem me dera ser o Lourenço, porque sou sopinha-de-massa, e isso não ajuda em nada.” 

Como se pôde notar, neste excerto de um texto de seis páginas, escrito por mim, na minha infância feliz, sobressai o facto de eu me ter referido a mim mesmo como gordo, ajudando a defender o meu ponto.

Assim, apelo aos nutricionistas que se preocupem menos com as palavras que utilizam para me chamar de gordo, da mesma maneira que eu, e o resto da sociedade, não temos a preocupação de vos chamar de “Falsos médicos”.

Estrague o dia a mais alguém.
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