08/03/2025
Tráfego de elogios
Atravessei, com o meu carro, à frente de um veículo que tinha prioridade na passagem. Contudo, apesar de ter cometido uma infração grave, para minha surpresa, o indivíduo que conduzia o veículo atravessado foi bastante simpático. Gritou do fundo dos seus pulmões: “Meu grande palhaço! Espero que morras, ouviste?”. Que amor de pessoa.
Ainda há esperança na humanidade, caro leitor. Qualquer outra pessoa, teria condenado o meu erro com injúrias de baixo calibre, mas este senhor não. Este senhor decidiu fazer a abordagem mais querida possível.
Para começar tratou-me por “Meu”, que é algo que só é utilizado quando temos um carinho por outra pessoa, não é verdade? “Meu amigo”, “meu filho”, “meu amor”. Tudo o que é nosso é prezado por nós. Eu, pelo menos, prezo muito aquilo que é meu — tal como o estimável condutor, me preza.
De seguida, adiciona logo o maior elogio possível a um humorista: “Meu grande palhaço”. Que é como quem diz: ”Meu comediante preferido”. Atenção, ele não utiliza apenas palhaço, mas sim, “grande palhaço”. É sempre bom ser reconhecido pelo nosso trabalho, principalmente, com atitudes tão afetivas.
Mas este bom homem, não se deixou ficar pelo elogio ao meu trabalho, quis, também, adicionar o mais querido desejo que se pode querer para alguém: “Espero que morras”. Sinceramente, quando o ouvi a dizer isto, soou um “Awww” na minha cabeça e quase me veio uma lágrima ao canto do olho. Que pessoa formidável. Há desejo mais simpático, para se ter em relação a alguém, do que “Espero que morras”? Não me parece. Um desejo muito atencioso. Aquele humanitário aguarda pela minha morte, como eu desejo a dele, e de qualquer pessoa. É amoroso, ao contrário dos que desejam vidas infinitas aos outros.
Que coisa horrível de se desejar a alguém: vida eterna. Não só se trataria de uma vida decadente, a nível mental e físico, como seria uma vida ausente de alegria, visto que acabaríamos por assistir à morte de todos os que amamos. Não me imagino a ter, alguma vez, ódio suficiente para desejar isso a alguém.
Por fim, aquele condutor ternurento, ainda teve o cuidado de me perguntar se eu o tinha escutado em condições, sendo que, no meio do trânsito, cheio de barulhos de motores e rádios aos berros, poderia ter-me escapado alguma parte daquelas suas declarações tão amáveis.
Vou ser sincero consigo, fiquei um pouco atrapalhado por ter sido apanhado de surpresa por tão boa pessoa, que simplesmente me limitei a levantar o polegar, sorrir e, do fundo do meu coração, dizer: ”Obrigado amigo”.
Posteriormente, veja lá, o impecável cidadão seguiu atrás de mim, com a sua viatura, e passou boa parte do caminho a fazer-me o dedo do meio. Eu comecei a rir-me e a fazer o dedo do meio de volta, porque é o que os amigos fazem. Tenho a dizer que a referência ao filme “Mr.Bean” — um dos meus filmes favoritos (Como é que ele sabia?) — ainda me deixou mais deliciado com o cavalheiro, que se despediu de mim com uma buzinadela longa, de quem diz: “Até um dia, meu grande palhaço. Espero que morras, ouviste?”. Eu buzinei de volta, como quem diz: “Ouvi, sim, meu anjo”.
Nisto, ainda distraído a pensar na gentileza daquele indivíduo — a quem gosto de referir como amigo/irmão — sem reparar, atravessei em frente a uma carrinha de gelados. Pedi desculpa imediatamente e o admirável condutor – mais um – além de ter aceite as minhas desculpas, demonstrou-o com uma bondade imensa: Ofereceu-me gelados, arremessando-os contra o meu automóvel. A sua pontaria já deve ter tido melhores dias, coitado, mas, apesar do seu arremesso digno de criança de seis anos sem braços, arrecadei dois Perna-de-pau e três cornetto de morango.
Que começo-de-dia formidável.