01/03/2025
Centro das avaliações
Estou com a impressão de que as empresas, de hoje em dia, têm um problema de autoestima. Por qualquer movimento executado nas suas aplicações, lá vêm elas suplicar por uma avaliação. No outro dia, depois de encomendar na ‘Ubereats’, pediram-me para avaliar a aplicação, a refeição, o estabelecimento que confeccionou a refeição, o motorista, o governo português, o canal de Youtube da Clara de Sousa e, ainda, requisitaram a minha auto e hetero avaliação, para ajudá-los a decidir a minha nota final do período.
Acho indecente. Nem na faculdade, eu tive tantas avaliações numa só cadeira, quanto mais, sentado numa só cadeira. Para a próxima, avisem antes que, a encomenda de uma pizza, envolve a submissão de um inquérito para uma tese de mestrado, se faz favor, pois eu opto por cozinhar uns ovos mexidos.
Outra coisa a ter em conta: A lata com que pedem as avaliações. É sempre uma mensagem do género: “Tem um tempo para nos avaliar?”. Eu tenho um tempo, se vocês tiverem um salário correspondente ao tempo que despenderei a avaliar. Que eu saiba, ser crítico de cinema, literatura, e cozinha ainda é uma profissão. Ora, porque é que eu haveria de exercer a profissão de crítico de aplicações de smartphone, sem receber qualquer tipo de remuneração? A isso chama-se “Estágio não remunerado” e eu, não estou interessado.
Como se não bastasse, além de abusadoras, estas empresas também são contra a democracia. Parece uma brincadeira, existirem empresas totalitárias em pleno Séc.:XXI, mas é real. Isto porque não nos é permitido responder “Não quero avaliar”. Ou avaliamos a aplicação ou clicamos no botão que diz: “Lembrar-me mais tarde”. Mais um esquema ardiloso destas empresas. É avaliar ou agendar. Não avaliar é proibido.
Eu sugiro que façamos uma revolução: A “Revolução dos Encravos”. Juntamos um grupo de hackers portugueses, e no dia 25 de Abril de 2025, depois de soar o Grândola Vila Morena, no Spotify, os hackers, invadem as aplicações destas empresas, com o objetivo de encravá-las. Como sinal de vitória, os revolucionários saem à rua com uma Playstation 2 na mão, como símbolo de algo que encrava muito e da liberdade de avaliação. De outra forma, passaremos o resto das nossas vidas a atrasar avaliações. O que tornará essas empresas muito parecidas com a minha mãe. Na medida em que, quando a minha mãe me diz para levar o lixo, eu também opto, recorrentemente, por dizer: “Lembrar-me mais tarde”.
A diferença é que, a minha mãe, ao contrário das apps, não se deixa ficar. Mal eu seleciono a opção “Lembrar-me mais tarde.”, volta, de seguida, a mesma mensagem: “Salvador vai levar o lixo”. Eu volto a pedir para lembrar mais tarde, e ela responde “Salvador, olha o lixo, Salvador. Não levas o lixo?”. E eu repito: “Lembrar-me mais tarde”.
Finalmente, a minha mãe consente, e diz: “Okay Salvador… mas podes levar o lixo agora, Salvador?”. E eu, “Já disse para me lembrar mais tarde!”, e ela, “Mais tarde quando, Salvador? Quando já tiver levado eu o lixo, Salvador?”. E eu, “Não! Estou só a acabar uma coisa importante, já vou.”, e ela, “O que é que pode ser mais importante do que ajudar a tua mãe e levar o lixo agora, Salvador? Não amas a tua mãe, é isso, Salvador? O lixo tresanda! Daqui a nada morro intoxicada, Salvador! Depois vais ter saudades minhas, e dos tempos em que eu te pedia para levares o lixo. Ouviste, Salvador? Não percebo o que te custa, Salvador? Eu andei contigo na barriga, durante 9 meses, a subir e descer escadas, e tu, nem a porcaria de um lixo és capaz de levar, quando te peço, Salvador…Vá lá Salvador… Leva lá o lixo e tira a louça da máquina, Salvador.”.
Na maioria das vezes, com os nervos à flor da pele, acabo por ceder e levar o lixo. Posto isto, acho que, se estas empresas querem obter resultados, deveriam agir mais como a minha mãe. Aliás, na realidade, elas só não agem, mais como a minha mãe, porque estão demasiado preocupadas em obter avaliações positivas, ao contrário da minha mãe, que se está a marimbar para as minhas vastas reviews negativas.
Chega a ser ridículo, o que estas empresas fazem por cinco estrelitas. Nem eu, quando fui uma criança gorda, me esforçava tanto para obter uma tigela cheia delas com leite. Como disse, muitas das empresas preocupam-se demais em ter comentários positivos e uma média de estrelas acima de 4.5. O problema é que muitas delas não merecem esse valor. Muitas empresas, pedem a avaliação e depois, ficam chateadas, se a avaliação for negativa. Eu quando estudava era igual. Não estudava, e depois, ficava chateado por ter tido 6 valores a Físico Química, por isso, ia chatear a professora para rever o meu teste, ao que ela respondia: “Lembrar-me mais tarde.”.
Não sei se esta analogia é a melhor, mas, creio que, também não será a pior. Importa-se de me mandar uma mensagem privada a avaliar de 1 a 5 a analogia descrita acima?
Estou a brincar. Avalie de 0 a 10.