Irrelevância Crónica

22/02/2025

Ativismo facial

Li uma notícia que dizia: “Quase 50 mil espécies de animais e plantas estão em risco de extinção”. Uma situação triste, mas que está a dar que falar e à qual estão a ser tomadas contramedidas. Já da extinção das patilhas, ninguém diz nada. 

Para onde foi aquele bocado de penugem retangular, que ficava, ali, na linha do olhar, a fazer fronteira com a orelha, e que, como uma nascente que desce pela montanha e dá origem ao rio, descia pelos cabelos para inaugurar a barba dos Homo Sapiens macho? — ou fêmea, se contarmos com a minha tia-avó Eugénia, que vive em Pinela. 

Que ideia foi essa, dos jovens fixes, abolirem as patilhas? Querem ser fixes, comprem uns óculos de sol e gozem com os miúdos considerados totós, mas deixem as patilhas sossegadas.

 Farto-me de ver iniciativas de precaução à extinção de fauna e flora, mas nada a favor da preservação dos frágeis filamentos capilares que unem o cabelo à barba. Não percebo. Nem uma campanha com a cara do Elvis Presley, nem uma associação para combater a ‘despatilhação’, nem uma fotografia de Jesus Cristo de patilhas, a rodar pelo Facebook, com uma legenda a dizer: “Quem não tem patilhas vai para o Inferno. Partilhe com os seus amigos descabelados kkkkkkkkkkk”. Nada. 

As patilhas estão a desaparecer à mesma velocidade que os bigodes se estão, triunfantemente, a multiplicar. A culpa parece-me ser dos bigodes, vieram desestabilizar o ecossistema. Uma cabeça tem um limite de segmentos de reta em pêlo que consegue suportar e, o bigode, veio roubar espaço a outras espécies capilares. Os bigodes são as vespas asiáticas das patilhas polinizadoras. 

O alastramento do bigode é um fator de risco para a manutenção das patilhas, mas é, também, muito ameaçador para quem o decide adotar. O bigode é uma espécie selvagem e perigosa. Trata-se de um predador nato. A presa, o Homo Sapiens macho, nem se apercebe, mas, assim que o bigode se aloja, acima do seu lábio superior, este, inicia um processo de secreção sofisticado, expelindo para o interior da vítima uma substância que, após ser desenvolvida, poderá ser riscosa à vida da presa — os homens com bigode desenvolvem “A mania”. 

Ter “A mania” é muito nocivo e irritante, e poderá afastar pessoas do seu círculo de amigos — normalmente, pessoas sem bigode e com patilhas. “A mania” escala quanto mais vistoso o bigode. Se for uma penugem leve passa despercebida, mas no caso de um bigode à Carlos Neto, “A mania” nota-se a manilhas. 

Para combater “A mania”, ou se tira o bigode ou deixa-se crescer patilhas. As patilhas são inibidoras de “A mania”. Acarretam na sua constituição pequenas doses de humildade que balanceiam o ego. 

Por isso, se o bigode está a extinguir as patilhas, então, é necessário realizar uma ação informativa e sensibilizadora perante os jovens, acerca dos riscos e perigos desse desenvolvimento, de modo a fazer reduzir o número de bigodes e proteger as patilhas que ainda restam, ao mesmo tempo que se fomenta a humildade na juventude, cada vez mais cheia de si. Caso contrário, qualquer dia, viveremos numa sociedade de “maníacos”, que passam os dias a partilhar as suas vidas nas redes sociais.

Esta é uma luta pela qual é imperativo tomar ações e não, simplesmente, partilhar uma história no Instagram de cartazes a denegrir o bigode e a elevar as patilhas por via de um trocadilho engraçado. Do tipo: “Chega de mascar pastilhas, salvem as patilhas!” ou “Bigode? Não, obrigadinho. Não quero ser beijada por um porco-espinho.” ou ainda — a minha preferida — “Bigode sem patilha? Pior que isso, só comer a mãe e a filha.”. Por muita graça que tenha, isto não basta. É preciso (“Bigode e sem patilha? Preferia comer sopa fria.” — lembrei-me agora desta.) tornar-se ativista. 

O mais sensato, inicialmente, será organizar grupos de ativistas e distribuí-los pelas escolas e universidades, de modo a expor este problema e sensibilizá-los — os adolescentes e jovens adultos — a aderirem a esta causa. Caso o plano falhe, podemos sempre despejar baldes de tinta verde em cima de jovens com bigode e sem patilhas. Até porque, como sabemos, historicamente, trata-se da maneira mais eficaz de sensibilizar pessoas para uma causa.

Estrague o dia a mais alguém.
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