15/02/2025
Carta de desmotivação
Enquanto jovem amador no mundo da escrita decidi candidatar-me a uma pós-graduação sobre o assunto. Para espanto do meu ser medroso, obtive a informação de que terei de escrever e submeter uma carta de motivação para completar a minha candidatura. Carta essa que deve descrever as motivações que me levaram a candidatar ao curso. Que ódio.
Ora, eu ainda nem entrei no curso e já tenho trabalhos de casa? Não faria mais sentido escrever essa carta depois de terminar o curso, aplicando os conhecimentos adquiridos? É que gostava de aprender antes dos meus textos serem analisados, assim, se estiverem maus, posso ao menos culpar o curso enquanto choro no banho.
Outra coisa que me preocupa é que eu não tenho motivações. Ou melhor, eu tenho motivações de vida, como por exemplo, estar com os meus amigos e família, tornar-me independente, namorar, ter filhos, ver o Game Of Thrones… mas nenhuma delas é a razão da minha candidatura. Já as minhas desmotivações, essas sim, são a razão de me candidatar ao curso. Desmotivações como a área em que atuo profissionalmente, a área na qual me licenciei, ansiedade perante o futuro e, a principal delas todas: o sentimento de estar perdido.
Talvez o tal curso me ajude a encontrar um caminho, talvez me deixe ainda mais perdido, talvez me distraia durante uns tempos até se tornar noutra desmotivação — como o final de Game of Thrones. Que importa? Não perco nada em fazê-lo, certo? Porém, não é isso que me assusta. O que me assusta é a possibilidade de chegar ao fim e não ter ganho nada em fazê-lo. Isso é que me troca as voltas e faz repensar, vezes sem conta. A verdade é que não sou jovem amador nenhum. Tenho quase 24 anos e escrevi trinta textos em toda a minha vida. Sou um adulto na estaca zero.
Medo. É essa a minha motivação. Medo de não me vir a tornar naquilo que idealizo para mim. Quão irónico. O que me põe a correr é o mesmo que me prende no lugar. Vivo em cima de uma passadeira de ginásio rodeada de vazio, o que não só me impede de fugir, como ainda me obriga a pagar mensalidade.
Pudera eu erradicar as minhas idealizações, viver a olhar para o que me rodeia em vez de a ostentar o horizonte. Certamente, seria mais feliz e agradecido. Se fosse só eu era fácil, mas a sociedade, o dinheiro, as relações, a felicidade: a “complexidade da vida”, como escreveram, num episódio, os argumentistas de Rick and Morty. Faz tudo parte de uma equação não solucionável, que passo a vida a tentar resolver.
Esta crónica tornou-se demasiado profunda, peço-lhe desculpa. Deixe-me contar-lhe uma pequena história engraçada que ocorreu durante um passeio com os meus dois irmãos mais novos, de forma a dar-lhe uma perspectiva da “complexidade da vida” e resgatar este texto da Fossa das Marianas.
A história começa durante um passeio, quando uma jovem com um cão passou por nós. Depois de várias festinhas ao animal, continuamos o caminho. Vinte segundos depois, o meu irmão mais novo, de 6 anos, colocou-me a seguinte questão com a sua voz de anjo:
– Salvador, gostavas de ser um cão?
Eu repeti a questão na minha cabeça e respondi francamente:
– Era tudo o que eu queria… e tu?
O meu irmão mais novo respondeu logo:
– Não! Porque depois não podia falar contigo.
A frase encheu-me o coração. Impressionante como uma simples frase, vinda de uma criança querida e inocente nos faz pôr tudo em perspectiva.
– Então e tu? Gostavas de ser um cão? – perguntei ao mais velho, de 12 anos, de forma a integrá-lo na conversa.
– Não. Gostava era de foder a dona.
O meu queixo caiu até ao umbigo e os meus olhos saltaram-me da cara, tal e qual um desenho animado. Fiquei perplexo. O meu irmão de 12 anos tinha acabado de expressar um desejo sexual – de uma maneira bastante brejeira e imatura, é verdade, mas exprimiu-o.
– O que é foder? – Questionou o mais novo, sem me dar espaço para reagir.
Hesitei em dar-lhe a resposta, mas não quis mentir e acabei por ensiná-lo:
– Foder? Foder é o que te fazem quando te obrigam a escrever uma carta de motivação.