Irrelevância Crónica

08/02/2025

A V Imperial

Em 2024 verificou-se que Portugal está entre os países da OCDE que têm o consumo mais elevado de álcool, o que deixou vários portugueses em choque. Os médicos pelo impacto que isto poderá ter na saúde e longevidade dos cidadãos, e os restantes portugueses por terem reparado que não estamos em primeiro lugar.

Felizmente para nós, portugueses que querem atingir o topo da lista, os líderes do país não só ouviram e não julgaram, como estão cá para nos apoiar. O governo apresentou o Orçamento de Estado para 2025 e, apesar de não ter aumentado as taxas de imposto sobre o álcool e tabaco, espera arrecadar mais de 80 milhões em impostos, esperando assim que os portugueses, este ano, consumam mais álcool do que o ano passado. 

Que orgulho. Os portugueses já tiveram a ambição de conhecer o mundo, agora queremos ser os melhores a tentar esquecê-lo. Já fomos parabenizados pelo pastel de nata, agora queremos ser reconhecidos pela ressaca. Já proporcionamos ao mundo uma palavra intraduzível, agora proporcionaremos várias imperceptíveis. Seremos os mais fortes a invadir os bares e restaurantes. Seremos os melhores a descobrir o caminho alcoolizado para a cama. Teremos os fígados mais resistentes da Europa – e possivelmente os mais doentes. Seremos o povo com mais histórias para contar aos netos – se chegarmos a conhecê-los. Voltaremos a pôr Portugal nas bocas do mundo – e o álcool do mundo nas nossas bocas.

Parece estar tudo alinhado para que Portugal em 2025 chegue ao primeiro lugar da lista de consumo de álcool por cidadão na Europa, e quem sabe, futuramente, faça a dobradinha e chegue também ao primeiro lugar de número de doentes oncológicos. 

Apesar de estar tudo a postos para que Portugal se torne no país mais boémio da Europa, falta dar o empurrão para que tal aconteça. Não basta criar as condições, é preciso fazer acontecer. Eu, enquanto patriota empenhado, passei alguns dias a refletir sobre o assunto e tive algumas ideias de medidas que o governo pode adotar para que Portugal alcance o seu objetivo. 

Comecemos pelas estradas, onde apenas existem operações de desincentivo ao consumo de álcool. Está mal. Sugiro que a par das ´Operações Stop’ se façam ‘Operações Shot’.

Regras das ‘Operações Shot’:

  1.  Nas ‘Operações Shot’ todos os condutores devem soprar no balão. 
  2. Caso os visados acusem 0.0 de álcool no sangue terão, obrigatoriamente, de assumir a multa no local, multa essa que consiste em beber três shots de bagaço. 
  3. Caso o multado se recuse a pagar no local, é-lhe retirada a carta de condução, que só poderá ser recuperada depois de uma noite de copos na respetiva esquadra. 
  4. Após a ingestão dos ‘shots’, será pedido ao condutor que faça a ‘pose do 4’, que poderá levar à ingestão de mais um shot, caso o agente responsável considere que a pose foi feita na perfeição.
    1. A perfeição na ‘pose do 4’ é atingida com notas iguais ou superiores a 8 numa escala de 0 a 10.
    2.  A votação resulta da média entre os votos dos dois agentes que estão a prosseguir com a diligência. 
    3. Caso a ‘pose do  4’ seja executada na perfeição máxima (10/10), o visado poderá ser recrutado para trabalhar como coreógrafo/a no “Dança com as Estrelas” ou como vela de aniversário.

 Um conselho que eu daria aos condutores seria andarem sempre com uma garrafa de álcool no carro, para o caso de serem parados pelas autoridades. 

Esta medida não só seria ótima para aumentar o consumo de álcool, como também serviria de incentivo, visto que beber três shots é um ótimo “Pré” e impulsiona a alterar o trajeto de trabalho-casa para trabalho-’baza-apanhar-uma-buba’.

Na área da saúde, sugeria aos psiquiatras receitarem a pacientes com depressão e baixa autoestima uma saída à noite com amigos, onde devem tomar uma imperial de 8 em 8 minutos até começar a sentir uma ligeira vontade de beijar toda a gente. 

No âmbito do marketing e publicidade ao álcool, proponho que se altere a frase em letras pequenas que diz “Beba com moderação.” para algo como “Beba com paixão.” ou “Beba sem noção.”, ou ainda, a minha preferida: “Beba.”.  Caso se procure uma opção mais internacional, para alcançar turistas e imigrantes, proponho “Just Drink It”.

No desporto, incuto aos adeptos que em vez do clássico cântico “Portugal allez, Portugal allez Portugal allez” repetidamente entoado nos jogos das selecções Nacionais, se cante antes uma música que eu aprendi nos meus tempos de estudante e que adaptei de forma a transparecer o nosso objetivo: “Por ti cantarei / Português até morrer / Álcool beberei / Até desfalecer / Portugal allez allez / Portugal allez allez /Portugal allez allez”. Escusado será dizer que nos jogos de Futebol, a equipa que perder ficará obrigada a pagar a rodada nas roulottes, depois do jogo.

No ensino, nomeadamente nas universidades, recomendo que os estudantes continuem com o bom trabalho. 

Antes de terminar, gostaria de relembrar que isto são apenas algumas ideias para que Portugal se torne na esponja da Europa, no seca-adegas Ocidental,  no suga-barris do Sudoeste, no vira-garrafas Peninsular, no Fernando Pessoa do Atlântico, mas o que realmente interessa é não ficar de braços cruzados à espera de alcançar o primeiro lugar. É preciso beber álcool. Ficar de braços cruzados à espera só se justificará, no futuro, nas salas de quimioterapia. 

Portugal está a contar consigo e, esperemos que, com médicos estrangeiros que ajudem a dar vazão ao futuro número crescente de casos de intoxicações alcoólicas em Portugal.

Estrague o dia a mais alguém.
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