Irrelevância Crónica

01/02/2025

Bolas Mediterrânicas

Até que ponto pode um conceito ser alterado sem que mude a sua identidade? A originalidade deveria permitir toda a mudança? incluindo mudanças de características-chave do conceito? A questão que coloco é: Onde está situada a linha imaginária que separa o que é uma bola de Berlim do que não é?

Vive-se numa sociedade de adaptações. As coisas boas já foram inventadas, por isso, os inventores adaptam e misturam para criar novidades. Mas até que ponto será aceitável comer um salgado e dizer que se comeu uma bola de Berlim?

A bola de Berlim é simples: um bolo frito, redondo e doce, que pode ser com creme ou sem creme mas sempre coberta de açúcar. Da frase anterior podemos retirar as suas características-chave: Doce, redonda, frita, coberta de açúcar. 

Para meu enjoo, em conversa com um amigo, ele contou-me que comeu uma bola de Berlim de queijo da serra e presunto. Ao ouvir tal monstruosidade, comecei a espingardear injúrias em direção a ele, à bola, aos criadores da bola e ao árbitro do Sporting-Famalicão que teve uma prestação lamentável no jogo da primeira mão do campeonato português na época 2019/2020.

Sejamos objetivos. Uma bola de Berlim de queijo da serra e presunto não é uma bola de Berlim, na medida em que um carro que voa também não é um carro. Um carro que voa chama-se avião. Ora recordemos as características-chave da bola de Berlim: Doce, redonda, frita, coberta em açúcar. Segundo o meu amigo a tal neo-bola de Berlim não era doce, não era frita, e não era coberta de açúcar. Apenas era redonda. Basta manter um traço nuclear para um conceito se perpetuar? Não me parece. O que me parece é que os “artistas” se aproveitaram de um conceito/ideia famosíssimo, adaptaram-no a uma coisa completamente diferente, mas continuaram a usar o nome “Bola de Berlim” para fins publicitários. 

Interrompa-me se eu estiver a ser desmedido nos meus pensamentos, mas soa-me a plágio. Se eu pegar num Big Mac tirar a carne e o queijo, e meter uma sardinha e uma batata a murro, e passar a chamar-lhe BigMac à portuguesa, estou a apropriar-me de um conceito  que integralmente nada tem a ver com aquilo que eu criei. Sendo assim, porque não criar outro nome para aquele salgado redondo com queijo da serra e presunto? Algo como “Bolas Mediterrânicas” porque  o Mediterrâneo é um mar, e o mar é salgado… Só uma ideia. 

A razão creio que está, como disse, na publicidade. As “Bolas Mediterrânicas” fica na cabeça terão de começar na casa da partida, enquanto as bolas de Berlim já compraram os bairros todos e têm vários hotéis espalhados pelo tabuleiro, incluindo no Rossio. 

Os produtos vegan são outros que seguiram essa lógica com um tremendo sucesso. Para quê criar novos pratos vegan com nomes estranhos tipo “Siniki de beterraba” que ninguém vai querer comer, quando se pode pegar em conceitos famosos e adaptá-los? A verdade é que uma pessoa que gosta de hambúrguer é mais propícia a comer um hambúrguer vegan, do que um “Siniki de beterraba”. 

Já imaginou se eu fizesse o mesmo para mim? Em vez de assinar os meus textos com o meu nome, assinasse como “Ricardo Araújo Pereira cabeludo e sem graça” ou “O mini Bruno Nogueira: menos tamanho, o mesmo sabor ”. Estaria errado.

Nisto não digo que a adaptação e mistura de conceitos deva chegar ao fim. Mas acho que deve prosseguir sem utilizar conceitos tradicionais nas suas marcas que nada têm a ver. Há vários exemplos de sucesso. Por exemplo, um E-reader não se chama livro digital. Um livro é outra coisa, folheia-se, cheira-se e não é ’touch’. O conceito foi bem conservado. Outro exemplo é a poltrona. A poltrona não se chama “cadeira confortável”, nem “cadeira onde os tios mais velhos adormecem nos almoços de família”. 

Posto isto, as bolas de berlim de queijo da serra e presunto deviam arriscar e alterar o nome para algo original e que soe bem. Fico apenas a aguardar um contacto dos criadores para chegarmos a acordo sobre a minha percentagem a receber depois de alterarem, brilhantemente, o nome das suas bolas para “Bolas Mediterrânicas”.

Assinado: Herman José da literatura.

Estrague o dia a mais alguém.
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