Irrelevância Crónica

25/01/2025

A manobra dos 'tivos'

Reparei numa manobra persuasiva executada por um amigo meu sobre a mãe dele. É uma manobra discreta que aumenta a simpatia da outra pessoa por quem a usa. Não serve para fazer grandes manipulações, como controlar os media ou apresentar um espetáculo de ventriloquia. Serve apenas para aumentar a taxa de realização de favores pedidos. Só serve para isso, mas serve muito bem. Estou a falar do uso do diminutivo e do aumentativo. 

O amigo a qual me refiro, sempre que precisa de algo, fez uma certa asneira ou, simplesmente, quer agradar a sua progenitora, dirige-se à sua mãe como “mãezinha”. 

 “Olá mãezinha, posso…” e “Desculpa mãezinha, é que…” são duas das suas construções frásicas mais conhecidas. Para mim sempre foi hilariante esta interação. Ver um amigo a ser sonso tem muita graça –pelo menos com os outros.

Os sonsos utilizam o diminutivo para diminuir um favor que pedem ou uma asneira que fizeram. Hoje ia sair de casa e a minha irmã perguntou-me se eu não lhe podia dar uma “boleiazinha até Algés”. Ora, eu ia beber um copo a Cascais e vivo em Cascais.  Só um sonso que sabe bem que aquilo que está a pedir é uma “boleiazona” é que utiliza o termo “boleiazinha”. 

Também há quem faça o contrário. Utilize o aumentativo para criar um senso de emergência perante o sujeito que quer que o favoreça. Quando  a minha irmã se vira para mim e diz: “Não me queres fazer um favorzão e ir beber um copo a Algés para me dares boleia até lá?”,  está a aumentar o valor de um  favor e cria uma sensação de recompensa maior ao favorecedor, que se sentirá melhor por ter realizado um “favorzão” ao invés de um mero favor.  

Mas o diminutivo e aumentativo não são apenas utilizados por sonsos, também os usa quem quer agradar. No meu local de trabalho tudo é muito pequenino. Sento as pessoas em “mesinhas” que se tornam acolhedoras. Deixo-lhes os “menuzinhos” que tornam a variedade de pratos numa leitura apelativa. Enquanto decidem o que comer, vêm umas “entradinhas” que pelo nome não podem ser caras, nem vão tirar a fome que se quer saciada pelos pratos principais. No fim da refeição, é hora do “docinho” , pois mesmo que já esteja cheio, não vai ser um “docinho” que o vai fazer rebentar. Sem esquecer o “cafézinho” a acompanhar, claro. Para finalizar, é me pedida a conta, mas como eu sou um rapaz muito generoso, entrego antes a “continha”. Esta traz o mesmo valor que a conta, mas é muito mais acessível a todos os clientes. 

A única situação em que o diminutivo evapora no atendimento ao cliente, é no agradecimento, que é área de especialização do aumentativo. O agradecimento não pode ser pequeno, tem de ser gigante, quase infinito. Tem de ser absoluto sintético. Portanto, mal o pagamento é concretizado, retribuo com um “Obrigadíssimo! Ótima tarde/noite e até uma próxima!”. 

Todavia, secretamente, o agradecimento contém diminutivo. Pois apesar de não ser verbalizado,  deve ser feito com muito amorzinho. O amorzinho que representa o gosto em servir. Caso um colaborador não tenha esse amorzinho por servir, o mesmo agradecimento, vai parecer falso e tornar-se vazio. 

Então já sabe, se quiser agradar alguém ou aumentar o número de favores que lhe fazem, utilize diminutivos e aumentativos. Mas antes de começar, leitorzinho, faça-me um favorzão. Dê uma vistinha de olhinhos nos outros textinhos e faça uma partilhazinha. Se o fizer, obrigadíssimo.

Entretanto, antes de ir, sabe dizer-me um bom sitio para beber um copo em Algés? É urgente.

Estrague o dia a mais alguém.
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