18/01/2025
Beldade ou competência?
Margarida Corceiro, numa entrevista à revista ‘CARAS’ em Novembro do ano passado, disse que por ser bonita se esforçava o dobro para acreditarem no seu talento. Uma atitude que eu admiro muito na atriz. Aliás, eu acho mesmo que as pessoas deviam seguir o exemplo da Margarida e tentarem ser mais bonitas.
Este ano, em nova entrevista à revista ‘CARAS’, a atriz disse que já não é tão comum associarem a beleza à incompetência, como quem diz que, em tempos, foi muito comum. A meu ver, isso nunca foi um preconceito. Posso oferecer-me como exemplo, pois desde que me lembro sou chamado de incompetente e sempre tive a mesma cara de bulldog mal morto.
Porém, talvez a Margarida estivesse a referir-se à indústria do cinema e televisão. Aí faz mais sentido. Realmente, nomes como Scarlett Johansson, Zendaya, Jennifer Aniston, Margot Robbie, Brad Pitt, Charlize Theron, Leonardo DiCaprio, Ryan Gosling, Will Smith, Alba Batista, Daniela Melchior e muitos outros atores belíssimos e premiados, ressoam incompetência a dar com o pau.
Como podemos verificar era um preconceito estrondoso que existia na indústria do cinema e da televisão. Aliás, como sabemos, sempre existiu uma grande escassez de atores belos nessa indústria devido a esse preconceito. Acho muito mal. Devia haver mais oportunidades para os pobres dos atores belos, que até aos dias de hoje, apenas têm o quíntuplo das oportunidades dos restantes atores anestéticos, um número muito abaixo do razoável, já que para não bastar, a maior parte, ainda é associada à incompetência.
Eu estou com a Margarida, acho que devemos parar de associar a beleza à incompetência, sendo que, evidentemente, é um preconceito nocivo e antigo na sociedade. Na minha opinião, a única coisa que se deve associar à incompetência é a falta de competência. Por exemplo, as galinhas. As galinhas são aves muito incompetentes no que toca a ser ave, tendo em conta que não voam. Outro exemplo de falta de competência: o Roberto, ex-guarda-redes do Benfica, visto que era melhor a oferecer golos do que a defender bolas. Ou ainda a minha ex-namorada, que coitada, graças a uma condição muito chata que contraiu, chamada “Ser uma cabra”, não teve a competência necessária para se manter fiel durante a nossa relação.
Contudo, para meu espanto e possivelmente da Margarida, vim a descobrir que existem alguns argumentos que apontam o contrário. Afirmam que as pessoas associam a beleza à competência, sucesso e prestígio. Os argumentos são levados a cabo por estudos feitos em universidades dos Estados Unidos, e pelos filmes protagonizados pelas princesas da Disney.
Iniciemos pelo argumento com menor credibilidade: Os estudos realizados por universidades nos Estados Unidos. Um estudo chamado “What is beautiful is good” publicado no Jornal of Personality and Social Psychology, concluiu que comparando um sujeito fisicamente atraente com um não atraente, as pessoas tendem a deduzir que o sujeito atraente terá um emprego mais prestigiado, um casamento mais feliz, que será melhor a educar os seus filhos e que terá uma vida social mais preenchida no geral. Ou seja, uma pessoa bela é, presumidamente, mais competente no trabalho, no casamento, na educação dos seus filhos e a relacionar-se com outras pessoas. Mas tal como disse, apenas se trata de um estudo realizado por investigadores numa universidade, não tem ponta por onde se pegue.
Já o argumento controverso que ecoa com maior razão é o retratado pelos filmes de princesas da Disney. Note que no filme “Branca de Neve”, a bruxa má pergunta ao espelho se “existe alguém mais belo do que eu?”, e não se “existe alguém mais incompetente do que eu?”. Talvez porque se a bruxa tivesse feito a segunda pergunta, possivelmente, não obtivesse resposta, tendo em conta as suas várias tentativas falhadas de assassinar Branca de Neve. Também a Cinderella é muito mais competente que as irmãs malvadas a cuidar da casa, conquistar príncipes e calçar-se em geral. A Rapunzel, após ter vivido 18 anos fechada numa torre, com um discurso mostrou ser mais carismática do que muitos oradores profissionais; e com uma frigideira , mostrou ser melhor guerreira que muitos guerreiros treinados. Todas as princesas da Disney são esplêndidas, autênticos poços de beleza, e são sempre muito bem-sucedidas nas suas aventuras. Já as vilãs, menos atraentes, acabam sempre por mostrar incompetência ao tentar destruir os sonhos da protagonista.
Posto isto, custa-me admitir, mas a Margarida poderá ter sido um pouco incompetente na afirmação que fez acerca da associação da beleza à incompetência e eu poderei ter sido um pouco incompetente em ter concordado com a Margarida.
Sinceramente, eu de mim já estava à espera, mas da Margarida, que para além de ser bela, se esforça o dobro para não lhe tomarem como incompetente, é de estranhar.