11/01/2025
O amor é Lego
A situação que vos trago hoje deixa-me de coração partido. É uma história de amor com final triste. Aliás, mais que triste. Um final desolador. É um daqueles romances clássicos que inicia com um amor infinito, com todos os dias reservados a dois corações inseparáveis. Mas que finaliza em desilusão total, após a distância e a maturidade matarem o fascínio de um pelo outro. Custa-me muito escrever sobre isto, mas necessito do desabafo. Então, cá vai. (Suspiro abatido de preparação)… Eu já não amo o LEGO Star Wars: O videojogo.
A história, como disse, é das clássicas. Tudo começou quando tinha 7 anos e fui passar o dia a casa de uns amigos dos meus pais. Entrei no quarto de jogos e deparei-me com o filho deles a jogar Playstation. Mas no ecrã não passava um jogo qualquer, o disco que girava era o Lego Star Wars.
Foi amor à primeira vista. Depois de ficar vários minutos especado a olhar para cada pormenor da sua figura pixelada, enquanto o outro miúdo se divertia com ele, os pais do miúdo insistiram — finalmente — para que ele me apresentasse ao jogo.
A sensação foi única. Cada desafio dentro do jogo, cada ‘cutscene’, cada chacina de Stormtroopers com o sabre de luz, cada aprendizagem e descoberta, cada personagem, e mesmo cada morte sádica que eu sofri às mãos do psicopata impudente, filho dos amigos dos meus pais: Tudo naquele ser inanimado me deslumbrou. Fiquei cego. Não só porque o psicopata às tantas me espetou um dedo no olho para eu não lhe ganhar – ainda que isso, também, me tenha deixado momentaneamente cego. Todavia estou a falar da cegueira que a paixão me causou. A paixão pelo LEGO Star Wars.
À saída de casa dos amigos dos meus pais, tentei arranjar uma maneira de ter mais tempo com o jogo que me encheu o coração e arrisquei pedir um empréstimo ao filho deles — o Diabo. Escusado será dizer que não só me foi negado o empréstimo como ainda acabei com bocados de plasticina dentro do ouvido.
Mal saí pela aquela porta, abriu-se um vazio, criou-se uma angústia. A paixão, e a dor de não a satisfazer eram abismais — dentro do que é abismal para uma criança de 7 anos. Felizmente para mim e infelizmente para os meus pais, sempre fui um miúdo persistente. Aliás, era pior que persistente, era ansioso. Não era só pedir insistentemente para os meus pais me comprarem o Lego Star Wars, era sofrer por cada segundo passado sem ele. Mais tarde ou mais cedo eles cederam à minha tristeza e, por fim, pude saciar a minha alma.
Foram anos de amor puro. Raro era o dia em que não estávamos juntos. Fizesse chuva ou sol, fosse sozinho ou acompanhado, quanto mais jogava mais gostava dele. A relação era perfeita. Dava-lhe a atenção que ele merecia e ele retribuía-me com diversão e alegria.
Contudo, os anos foram passando e a paixão foi perdendo o gás. A monotonia e falta de novidade levaram-me a diversão e alegria, o que me fez, deixar de lhe dar a atenção que merecia. Dei por mim a passar de uma dança de salão cheia de energia, onde o par dança harmoniosa e confiantemente, para um bate pé insípido na discoteca, onde a manutenção é forçada e o ruído aumenta o afastamento.
Quando me apercebi, tinha terminado. Comecei a interessar-me por outros jogos, mais maturos, mais estimulantes, e vendi todos os meus jogos para comprar o novo jogo do Dragon Ball. O pensamento que tinha chegado a ser fixo, desapareceu. O LEGO Star Wars apenas se descobria por meros segundos na minha cabeça, quando era utilizado em referências ou em partilha de memórias entre amigos.
Não é que o nosso término tenha sido abrupto ou em maus termos. Simplesmente já não existia mais nada para dar um ao outro. Simplesmente, desprenderam-se os nós do ficar por ficar, do gostar por gostar.
Até que uma década passou e o destino pregou das suas. Há uns meses fui comprar um jogo para a Nintendo para oferecer ao meu irmão mais novo. A loja a que fui é daquelas que compra e revende jogos em segunda mão – acho que já percebeu onde é que isto vai dar. Dei por mim de mão dada com o LEGO Star Wars, a caminhar para fora da loja.
Em direção a casa fui recordando o que tinha sentido com aquela velha paixão. Os sentimentos explodiam na minha cabeça como pipocas. Cada um mais forte e nostálgico que o outro. Seria aquilo uma chama a reacender ou um espetáculo de ficção dirigido pelo meu hipocampo? Não sei, mas agradaram-me aqueles sentimentos. O entusiasmo para jogar tinha voltado.
Cheguei a casa e fui direto à Playstation. Inseri o CD e comecei a jogar. Instantaneamente percebi que tinha cometido um erro. Terminei o jogo em cinco horas. Os mapas eram os mesmos, os níveis eram os mesmos, a história era a mesma, os personagens eram os mesmos. Nada tinha mudado. Exceto eu. Eu mudei. Eu cresci. O amor ainda existia, mas não era ao jogo, era às memórias que o jogo me deu.
No dia a seguir peguei nele e fui devolvê-lo. “Não és tu, sou eu.” Foi a melhor justificação que arranjei. No processo da devolução, avistei o Dragon Ball que tinha comprado há uns anos atrás. A história repetiu-se. Repetiu-se porque as memórias iludem e as pessoas demoram a perceber o truque. Porém, desta vez, ficou percebido. Ficou percebido que as pessoas mudam. Há traços que são apagados, há gostos que passam a desgostos, há paixões que passam a desilusões.
Retornei à loja, novamente, para devolver o Dragon Ball. Espantei-me ao avistar o filho dos amigos dos meus pais, na fila para a caixa, com o LEGO Star Wars na mão. Não consegui evitar esboçar um sorriso. O sorriso de quem pensa “Eu sei o que isso é”.
Inicialmente, fiquei num impasse em relação a cumprimentá-lo, pois já não nos víamos há anos e ele sempre foi um miúdo detestável – o Diabo, como eu lhe chamava. Mas depois, enquanto pessoa que passou pela mesma situação, achei que deveria alertá-lo, avisá-lo que aquela compra seria um erro.
Avancei, toquei-lhe no ombro e esbocei um sorriso. Quando dei por mim, estava no chão, após ter sofrido um golpe de judo em plena loja. Perguntei-lhe, retoricamente, se ele era otário ou se se fazia passar por. O clássico “Mas tu és otário ou fazes-te?!”. Ele riu-se e enfiou-me plasticina nos ouvidos.
Ao que parece, existem pessoas como o LEGO Star Wars: não mudam.