04/01/2025
C'um Catan-o
Os jogadores de Catan deviam relaxar um bocadinho. Se gosta de jogar Catan, não me leve a mal. Aliás, eu gosto do jogo, é divertido. Mas, às vezes, não me apetece passar o sábado à noite a trocar pedra por feno e a construir cidades através da junção de três argilas com duas madeiras.
No outro dia, organizei um convívio com alguns amigos em minha casa. Pedi para eles tratarem da bebida, que eu tratava da comida. Os convidados foram chegando com as bebidas, até que, numa das vezes que tocaram à campainha, chegou um dos meus amigos, sem qualquer tipo de líquido consigo, mas a segurar, alegremente, uma caixa, onde se lia: Catan. Ora, ou ele trouxe as cervejas dentro da caixa do Catan, porque não tinha sacos em casa, ou então, pensou que o ato de “tratar da bebida” está de alguma forma relacionado com lançar dados e colocar peças de plástico em cima de um tabuleiro de cartão.
Honestamente, senti-me violado pelo meu amigo. Não se espeta um Catan nos braços de alguém, sem consentimento. O pior foi que, quando contei aos restantes o que se tinha passado, eles fizeram parecer que a culpa foi minha. Disseram coisas como: “Sim, mas tu também puseste-te a jeito. Quem é que te manda organizar um convívio em casa?” ou “A vestires-te assim, com essa camisa de padrão hexagonal e essas meias com troncos, estás à espera de quê? Que não te espetem um Catan nos braços?”. Típicos comentários de quem nunca recebeu uma espetadela de Catan nos braços.
Pode achar que eu estou a dramatizar, mas imagine que eu chegava a sua casa, após um convite seu para tomarmos café, com uma mochila cheia de sacas de batatas, colheres de pau, alguidares, pacotes de farinha, ovos e vendas, para fazermos uma sessão de jogos sem fronteiras. Faz algum sentido? Ou mesmo se fosse ao contrário. Imagine que me convidava para jogar Catan e eu aparecia em sua casa com duas garrafas de licor beirão, uma coluna JBL e três strippers. Não se faz certo? Então porque é que com jogos de tabuleiro tendemos a deixar passar?
“Mas Salvador, qual é o problema? Mesmo que ele tenha levado o Catan, não é obrigatório que joguem.”. Pois não, caro leitor. No entanto, a chegada do Catan cria uma ilusão na cabeça dos convidados e se não for utilizado, desapontará os mesmos. Trata-se da “Arma de Tchekhov”, um princípio dramático que diz que “todos os elementos presentes numa história devem ser necessários e os elementos irrelevantes devem ser removidos”. Nesta situação é o mesmo. A partir do momento que, o dito amigo, chega com o Catan, este, passa a ser um elemento presente no enredo do convívio e a sua não utilização disturbará os convidados.
Isto para dizer que naquele mesmo convívio que vos falei, às tantas, o meu amigo começa a aliciar os convidados para jogar Catan. Eu fiquei furioso e gritei com ele, afirmando que não íamos jogar Catan. Nisto ele ignora-me, abre a caixa e começa a montar o tabuleiro. Eu, cego de raiva, pego no tabuleiro e lanço-o, de forma certeira, à têmpora do meu amigo. Ele cai para trás, bate com a cabeça na quina de uma mesa e começa a esvair-se em sangue.
Eu fiquei branco, mas fui logo socorrê-lo. Percebi que não tínhamos muito tempo, e agi rapidamente. Peguei nas madeiras e argilas que tinha em casa e construí uma estrada até ao hospital mais próximo. Depois reuni recursos e comprei uma cavalaria, mandei uma murraça no cavaleiro — que se estava a armar em parvo porque o cavalo era novo e não queria sujá-lo de sangue — pus o meu amigo em cima do cavalo e lá fomos nós a galope até ao Hospital.
Felizmente, chegámos a tempo e o meu amigo foi tratado. Mais tarde no quarto de hospital, ele pediu-me água. Eu disse: “Troco-te água por duas pedras.” Ele disse que só tinha uma pedra, e eu disse: “Ganda azar, oh primo”. Virei-me de costas para me sentar e de repente levo com uma pedra na cabeça. Começo a espirrar sangue da nuca. O meu amigo salta para cima de mim e começamos à bulha. Depois de uma luta intensa, eu ganho uma posição vantajosa sobre o meu adversário, saco dos meus seis fenos e começo a sufocá-lo em palha. Ele falece e deixa-me preocupado, porque fiquei sem saber como é que ia encobrir aquele desastre. Até que tive uma ideia. Larguei as minhas quatro ovelhas na sala, que serviram de bodes expiatórios, e fugi no cavalo. A meio caminho, o cavalo entrou na reserva e tive de parar numa bomba para lhe pôr palha no depósito. Assim que estacionei o bicho, fui emboscado por um ladrão que me levou os recursos todos, sem piedade.
Abandonei o cavalo, pois de nada me servia e caminhei durante horas até casa. Quando lá cheguei, já não havia cerveja. Por isso, fui buscar dinheiro e voltei há bomba para comprar mais. Quando lá cheguei, também já não havia cerveja. Um cavalo tinha levado, há umas horas, o último pack. Então, fui até ao Hospital, ver se havia cerveja, mas quando lá cheguei, só havia cerveja sem álcool.
Como precisava de ganhar andamento, emborquei cerveja sem álcool atrás de cerveja sem álcool, quando dei por mim estava com uma ‘sobriedeira’. Até o senhor do snack bar do Hospital disse: “Cuidado olhe que ainda fica sóbrio demais e depois é uma chatice, começa a chatear as pessoas para fazer corridinhas diárias e comer saladas, e ninguém o aguenta.” Mas eu já não o ouvia, estava tão sóbrio que comecei a ouvir um podcast de “Self-Improvement”. Virei mais duas garrafas e comecei a pensar em ter filhos. Estava completamente sóbrio. Pedi mais uma. Dei dois goles e comecei a sentir o Universo a chamar por mim. O meu corpo cedeu e bati com a testa no balcão. Entrei em coma abstémico.
Infelizmente, os médicos não me conseguiram ajudar a tempo porque andavam ocupados a tratar de uma “fuga de ovelhas assassinas”, e eu, apesar de ter sobrevivido, contrai lesões graves a nível cerebral. Para além de nunca mais poder beber cerveja sem álcool, desde esse dia que lido com uma deficiência cognitiva que faz com que, para o resto da minha vida, confunda “Tratar da bebida” com “Trazer o Catan”.
Moral da história: Não leve o Catan para casa de amigos que não querem jogar Catan, sem usar capacete.