Irrelevância Crónica

28/12/2024

Querido, esvaziei o tanque

Dei por mim numa longa sessão de ‘zapping’ pelos canais televisivos e deparei-me com um programa já conhecido pela generalidade das pessoas. Não, não vou falar do Big Brother, não se preocupe. Trata-se do programa que ajuda acumuladores compulsivos.

 Aqueles que mantêm mais produtos fora do prazo no frigorífico que qualquer avó. Aqueles que dão tanto valor a todas as ninharias que as suas posses dariam para fazer sete feiras da Bagageira. Aqueles que vivem de forma tão suja e asquerosa que, em comparação, o carro daquele seu amigo “despreocupado” parece um santuário. No fundo, aqueles que têm um problema de acumulação.

Este programa passa-se nos Estados Unidos e têm o objetivo de ajudar acumuladores a libertarem-se da montanha de bugigangas, quinquilharia e lixo que, ferozmente, guardam nas suas casas. Mas é mais que isso. É também ajudar alguém a superar uma doença que o tem consumido durante muito tempo.

Em Portugal o mais parecido que temos com um programa desse género é o “Querido Mudei A Casa”, que por si só, não tem nada haver. As únicas semelhanças são que em ambos os programas o objetivo é ajudar, o local de filmagens é a casa do participante e, em ambos,  dá-se aquele momento do “Antes e Depois” por qual o espectador tanto anseia. Ainda assim, o programa português não chega minimamente perto dos níveis de imundície traumatizante do americano, mesmo tendo sido apresentado pelo Gustavo Santos. 

A razão para não existir um programa idêntico ao americano em Portugal é básica. Relaciona-se com a falta de acumuladores de frioleira. Ainda que eles existam. Poucos e escondidos atrás de pilhas de migalhice, mas existem. Contudo, a culpa está no resto dos Portugueses, que embora também sejam obcecados em acumular, acumulam o que não se vê, o oculto, o intangível. Acumulam sentimentos.

O Português vive a boiar nos seus sentimentos. Cada dia que passa vai enchendo o tanque das emoções, até ao dia em que um sentimento gerado por alguém, nem precisa de ser forte, dá um salto mortal encarpado com finalização em bomba, para dentro do tanque e este, por estar sobrelotado, desfaz-se e os sentimentos são todos expelidos em direção àquela pessoa que não lhe disse “bom dia” quando entrou no seu local de trabalho.

Acumular um sentimento é programar uma bomba-relógio que, a qualquer momento, vai explodir na cara de alguém — que pode não merecer levar com uma explosão na cara.

Esta prática de acumular sentimentos é pouco segura, pois frequentemente os sentimentos que são expelidos, expressam-se em forma de  raiva, tristeza, medo ou vergonha, basicamente as emoções menos boas. Porquê só as negativas? Porque as positivas não se acumulam. Se o leitor, digamos que queria muito ter um cão, e  recebe um cão. Você vai amontoar a alegria para visitar mais tarde? Não. Vai transparecê-la mal ponha a vista em cima do seu novo bichano. 

Não existe o acúmulo de alegria. A alegria não se evita, não se fecha numa caixa para não ter de lidar com ela. O máximo que pode acontecer é estar suprimida por um sentimento mais forte. Digamos que recebia o tal cão, mas a sua mãe tinha morrido no dia anterior — não se preocupe, já bati três vezes na madeira. Obviamente — ou melhor, obviamente não, pois eu não o conheço e não coloco a minha escrita no fogo por ninguém — mas, quase de certeza, que a alegria de receber um cão seria inibida pela angústia e sofrimento de ter perdido a sua mãe no dia anterior. 

A parte negativa da alegria é não se acumular. Por isso é que quando ficamos mais velhos tendemos a ficar mais rezingões. A vida já levou muito aos nossos avós, o suficiente para encher vários tanques de emoções. Não admira que as suas alegrias sejam mais acanhadas. Mas pensando bem, ainda bem que não se acumulam alegrias. Imagine a quantidade de vídeos no youtube de pseudo investidores/psicólogos que iam ser lançados a incentivar o ajuntamento de alegrias para mais tarde, 30 ou 40 anos depois, viver uma vida plena. O problema é que a vida já é plena com as alegrias que pudemos contar e as tristezas que carregamos. Ninguém aguentaria anos sem alegria, pois sem alegria, só sobra a esperança, e essa vai desvanecendo.

Posto isto, o melhor que pode ser feito para evitar o desânimo do envelhecimento é libertar os sentimentos encarcerados. Pode parecer uma solução destrutiva, mas só é destrutiva no início, depois passará a ser construtiva. Construtiva do seu bem-estar. Para se viver numa casa bonita foram preciso ser feitas obras nada glamorosas. O mesmo se aplica a nós mesmos. Para viver em tranquilidade necessita esvaziar o tanque, quer seja gota a gota, balde a balde ou carregando num botão vermelho, que faça explodir duas toneladas de TNT.

A escrita, a terapia, a arte são ferramentas formidáveis para isso. Para o esvaziamento do tanque. O problema é que são pouco admiradas pelos Portugueses ou pelo menos dão preguiça de começar. Portanto, eu tive uma ideia. Um programa de televisão sobre acumuladores de sentimentos. Onde um grupo de especialistas ajuda o acumulador que se voluntaria a apagar a sua amargura através de ensinamentos, conversas e desafios. Apresentado por João Manzarra para criar um contraste cómico e angariar audiências. 

A ideia provavelmente é mediana — na melhor das hipóteses. No entanto, muitas vezes sinto medo de partilhar ideias que não sejam magníficas ou perfeitas, por isso aí está, menos uma gota.

Estrague o dia a mais alguém.
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