Irrelevância Crónica

07/09/2024

Irrelevância crónica

Existem cerca de 100 a 200 mil milhões de galáxias no universo observável — só no observável. Esta informação basta-me para tomar consciência da minha irrelevância. Não sou importante e nunca o vou ser. Padeço de irrelevância crónica, tal como o leitor — primeiro texto e já estou a anunciar que o leitor é descartável, quem sabe me convidem para fazer uma TED-Talk sobre como conquistar o público.

Quando o acuso de ser irrelevante, digo-o de um ponto de vista universal. Certamente que o leitor é importante para a sua mãe, filhos, avós, cão, cacto ou até quem sabe, país. Ainda assim, de uma perspetiva longínqua não deixa de ser um grão de areia sem rumo no meio de 200 mil milhões de galáxias.

Antes de começar a panicar, como eu, quando me apercebi da minha insignificância cósmica, tente ver as coisas pelo lado positivo. Ser irrelevante é bom.

Ao contrário de quem se acha importante, nós irrelevantes podemos ser genuínos sem estar limitados pelas amarras da imprescindibilidade.

Eu, hoje, escrevo o que quero e penso. Rabo, escroto, Pirinéus. Viu? Uma pessoa com tendência para se achar indispensável não escreve estas coisas, fica mal. Como se pensam importantes, também pensam que aquilo que dizem ou escrevem importa. Já eu, no alto da minha irrelevância, não podia estar mais despreocupado. Tenho plena noção de que nada do que eu digo ou escrevo importa ou deve ser levado a sério. Aliás, se existisse uma sinopse para este site seria: Amontoado de palavras que procuram expressar os pensamentos ínfimos do autor.

Com isto não quero dizer que a vida seja irrelevante. Muito pelo contrário. A vida é estupidamente preciosa. Só existe uma. Por isso, devemos desfrutá-la, a despeito da nossa inutilidade. Parece contraditório, mas não é. É bastante simples, na verdade. Só quero amor bom, carinho, solidariedade, faz-me rir e eu prometo que não te — peço perdão, deixei-me levar pelos Da Weasel.

De volta à preciosidade da nossa vida irrelevante.

Os humanos são como batatas fritas de pacote — calma, deixe-me explicar.

Imagine uma batata frita de pacote chamada Simone Saborosa.

Agora pense. Existem milhões de batatas fritas de pacote no mundo, cujo único propósito é manter a espécie fora de vias de extinção. Logo, qualquer batata frita de pacote é insignificante. Contudo, a vida da Simone Saborosa é única. Nunca mais vai existir outra Simone Saborosa depois desta ser comida por um adolescente desnorteado que passa os dias a jogar Fortnite.

Resumindo, a Simone Saborosa enquanto batata frita é insignificante, mas a sua vida é preciosa. É vasto o número de estubercozóides — para quem não sabe é o nome que se dá aos espermatozóides das batatas — que dariam tudo para ter ganho a corrida que a Simone ganhou.

No final das contas, o que importa é aproveitar a vida. Aproveite para rir, chorar, amar, gozar, brincar, aprender, fazer, correr, saltar, nadar, observar, escutar, cheirar, sentir, mas sobretudo ler. Leia muito. Leia demasiado. Leia textos humorísticos de autores com pensamentos ínfimos que serão publicados semanalmente neste site. Porque ler é o mais importante. Principalmente, ler textos insignificantes que não dizem nada de sério.

O leitor neste momento deve estar a interrogar-se: “Então mas se este paspalho diz que é irrelevante e que nada do que diz e escreve importa, para que é que vai publicar textos num site, para outras pessoas lerem?” Ao que eu até poderia responder… mas seria irrelevante.

Estrague o dia a mais alguém.
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