14/09/2024
Há sinónimos para tudo
Tenho vindo a reparar que as palavras que utilizamos para definir uma pessoa sem juízo mudam de situação para situação.
Se um amigo seu foge à polícia, enquanto conduz completamente embriagado, é maluco. Já se você avistar na rua uma pessoa com aspecto estranho a gritar palavras sem sentido, é um maluquinho. Quando a sua amiga quer mergulhar para a água de uma ravina de 10 metros, está louca. Mas quando bebe uns copos e está entusiasmada para sair à noite, está louquinha.
Não se trata apenas de passar certas palavras para o diminutivo.
Se a sua mãe corta uma maçã com uma faca de plástico descartável, é doida. Se for um youtuber a fazê-lo, é “completamente insano, maninho”. Um jovem a 50 à hora na faixa da esquerda da autoestrada é anormal. Se for um velhinho, então é demente. A um político com ideias estúpidas chamam de mentecapto; a um político com ideias inovadoras chamam de lunático. No jornal lemos notícias sobre pessoas mentalmente instáveis. Na internet, lemos comentários de pessoas alucinadas. O movimento woke prefere o termo “desequilíbrio mental”. Para os restantes não deixam de ser doentes mentais. Imagino os Gato Fedorento a utilizarem a palavra “chalupa” num dos seus sketchs. Para a geração de hoje em dia, isso é crazy.
Impressionante a quantidade de palavras que existem para definir alguém fora do normal, sem razão ou juízo. Até diria que é tresloucado — faltou esta — termos tantas palavras com significado semelhante, mas que são utilizadas em situações diferentes. Com os sinónimos de normal isso não acontece.
Se um indivíduo lava os dentes antes de se deitar às onze da noite e acorda às oito da manhã para chegar a horas ao escritório onde exerce o cargo de contabilista, designa-se normal, trivial, banal, comum, habitual ou corriqueiro. Não há diferença entre chamar alguém de banal ou de comum. Já dizer “Pai, és um maluco” ou “Pai, és um anormal” , pode fazer toda a diferença na sua situação habitacional no final do mês.
Outra coisa curiosa é que hoje em dia é preferível ser maluco, a ser trivial. Ninguém quer ser costumário. Todos querem ser diferentes. As pessoas ficam mais ofendidas por serem chamadas de normais do que por serem chamadas de loucas.
Doido é um elogio, comum é uma ofensa.
É melhor ir para o trabalho de tanga e touca na cabeça do que usar uma camisola igual à de um colega — este exemplo não se aplica a nadadores profissionais.
Eu prefiro manter-me normal. Já viu o trabalho que dá ser louco? A imaginação e o excesso de autoestima que é preciso ter. É absurdo. As pessoas não têm noção do quão bom é ser banal. O conforto e prazer de ver televisão, ir ao cinema, passear, adormecer no sofá, beber uma cerveja entre amigos, ler um livro, ver o pôr do sol, dar um mergulho, estar com as pessoas de que gostamos…
É verdade que pode não ser tão excitante como viajar pelo mundo de triciclo, beijar uma pessoa nova todas as noites, fazer parapente de boxers, fazer sexo numa capela, pintar o cabelo de roxo, vestir um abajur em vez de calças ou rebolar em lava. Mas é menos cansativo.
Claro que também não quero uma vida super monótona, toda programada até ao fim dos meus dias. Mas um toquezinho de loucura de vez em quando basta. Aliás, vou acabar esta crónica a fazer uma maluquice, não vou utilizar pontuação na frase final. Crazy ou não