Irrelevância Crónica

21/09/2024

Barriga cheia, coração quente

Há umas noites, num jantar de amigos, uma das senhoras disse: “Eu jamais me separaria de um homem que cozinha bem”. Rapidamente imaginei um filme na minha cabeça:

A protagonista – vamos chamar-lhe Mari Lulas – está em casa com uma outra amiga – vamos chamar-lhe Pirili – a beber um copo de vinho e a conversar nostalgicamente sobre os tempos de faculdade.

De rompante, aparece o seu marido muito efusivo, claramente embriagado. Este, disparatadamente, agarra na garrafa de vinho, bebe dois grandes goles e balbucia: “Sua grande vaca!” – dirigindo-se à mulher.

Mari Lulas muito envergonhada, desculpa-se a Pirili,  em lágrimas, enquanto o marido despe as calças no meio da sala e cai desamparado no sofá, onde começa a roncar.

Sabendo que o sucedido era algo recorrente, Pirili enche-se de coragem e diz: “Não percebo! Como é que ainda continuas com este homem!?” Ao que Mari Lulas, embaraçada, responde: “É que ele faz um risotto de chorar por mais”.

 No fundo, a minha amiga estava apenas a hiperbolizar – espero eu –  de forma a enfatizar que cozinhar bem é algo que ela procura num homem ideal. Eu sei disso e compreendo. Eu próprio tenho o sonho de passar a eternidade com o José Avillez. 

Mas acho que seria sensato e positivo adicionar uma palavra à frase para protegê-la de cair numa possível hipocrisia. Algo como “Eu, provavelmente, jamais me separaria de um homem que cozinha bem”, não vá um eventual destino fazer aquela frase pesar-lhe na consciência.

Outra coisa que reparei na frase da minha amiga foi a intensidade com que foi dita. Deu para perceber que arranjar um homem com dotes culinários é tão importante para ela como a primeira de mão para os Climáximo.

Ela quer alguém que olhe para a Bimby e pense ”Sou melhor que tu”. 

Quase de certeza que um dos seus filtros de pesquisa nas apps de encontros é “cozinheiros”, se é que não anda à procura do amor em livros de receitas. 

Sinceramente, nunca percebi estas pessoas que dizem «O meu namorado/a tem de ter X características, tem de gostar de Y coisas e tem de ter Z dinheiro no banco.»

Eu prefiro usar o método oposto: a pessoa que está comigo tem de aceitar que eu tenha X características, tem de compreender que eu goste de Y coisas e tem de se conformar que eu tenha Z dinheiro no banco – e quase de certeza não terei mais.

Assumo que através deste método terei de lidar com X características da minha parceira que detesto, questionar-me-ei sobre Y gostos dela e invejarei, indubitavelmente, Z dinheiro na sua conta bancária.  Mas, provavelmente, jamais me separaria de tal mulher.

Estrague o dia a mais alguém.
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