02/11/2024
Agradar a gregos, troianos e restantes
Sam the Kid, numa das suas mais conhecidas canções, canta os seguintes versos:
«Sendo assim, a cena sai sem pressões
Sinto o som sem pensar em aceitações».
Estes dois versos deixam-me a dar murros nas almofadas de inveja do autor. Por uma razão muito simples: eu sinto o oposto. Tudo o que faço na vida deixa-me sob pressão devido aos meus pensamentos intrusivos sobre aceitação.
Ao que parece a minha motivação de vida é querer ser aceite por todos. Agradar todo e qualquer ser humano. Eu quero viver para que gostem de mim e morrer para que sintam saudades minhas. Quero que toda e qualquer pessoa que me conheça pense: “Que homem formidável, fazia fácil”.
O problema é que viver com esta pressão é uma maldição. Eu nem consigo agradar, em simultâneo, às pessoas do meu pequeno círculo, quanto mais agradar ao planeta inteiro. Dou-lhe um exemplo. Ontem vesti uma camisa azul bebé. A minha mãe gostou, a minha namorada odiou e a minha irmã irritou-se porque a camisa era dela.
Por isso, invejo pessoas como Sam the Kid. Pessoas que, genuinamente, não querem saber de aceitação. Invejo essas pessoas por uma razão muito específica: paradoxalmente, essas são as pessoas que têm maior aceitação no mundo artístico.
Eu duvido que quando Picasso pintou Guernica tenha pensado: “Isto vai bater”. No entanto, a sua obra é uma das mais famosas no mundo. Assim como não acredito que Fernando Pessoa tenha criado vários heterónimos para o caso de, se o leitor não gostasse de um, ter mais opções. Porém, esses mesmos heterónimos são hoje estudados em todas as escolas do nosso país.
A arte quanto mais genuína, mais específica; e quanto mais específica a mais pessoas vai agradar. O público não quer arte generalizada, isso qualquer um faz. Quer algo específico e diferente, mas ao mesmo tempo genuíno e que o encha de empatia. Porque é que as pessoas se estão sempre a queixar dos clichês? Porque é algo geral e pouco ou nada original. Já foi feito milhares de vezes, em milhares de histórias.
Felizmente para mim, os meus textos não mostram qualquer sinal de clichês. Podemos analisar este mesmo e verificar como é verdade.
O texto inicia com uma citação de um autor conhecido. Nunca antes visto. De seguida, mostro um ângulo diferente do autor citado. Inédito. Depois, falo sobre o quão difícil é viver com esse meu ângulo. Um homem social e economicamente confortável a vitimizar-se? Insólito. A seguir, desmistifico o que é preciso para ser um artista de sucesso. Desmistificação essa feita por alguém que não é artista. Fico a aguardar o prémio Nobel da criatividade — ou, caso não exista, que o inventem por minha causa.
Por fim, ao perceber que o meu texto é medíocre, analiso-o com ironia de forma a salvaguardar-me de críticas do leitor, pois acredito que, ao mostrar autoconsciência de que sou medíocre, o leitor poderá pensar que, na realidade, sou um génio. E quem é que não gosta de génios?