Irrelevância Crónica

09/11/2024

Desobjetificação em curso

A minha mãe comprou uma coluna que fala, para pôr na sala de estar. Agora se quiser acender a luz, ligar a televisão ou ouvir música, basta-me pedir à coluna e ela trata disso por mim.

Impressionante… não a capacidade da coluna, mas a incapacidade da humanidade. 

Carregar num interruptor tornou-se uma coisa enfadonha. Realmente é muito mais fácil berrar para um dispositivo do que pegar no comando da televisão. Comando esse que vai ser necessário para mudar o canal. No outro dia, apanhei a minha mãe a gritar com a coluna para ligar a televisão, com o comando na mão. Tudo para depois dizer que a coluna que fala dá imenso jeito.

A humanidade encontra-se em processo de humanização de objetos. A coluna que fala é só o primeiro passo para uma casa cheia de objetos conscientes. Pobres dos objetos. Não nos chega a raça humana atormentada: temos também de subjugar os objetos a isso.

Eu diria que não vai tardar muito para chegarmos a casa e ter frigoríficos a fazer comentários preconceituosos sobre mini-frigoríficos; a televisão a monopolizar a informação transmitida; carregadores a ser escravizados por computadores; molduras digitais a assassinar molduras primitivas; candeeiros em guerra uns com os outros pela iluminação do território; a torradeira e a máquina de café a manifestar-se por não receberem a mesma energia que o forno ou o microondas; a máquina de lavar a roupa a recusar-se a lavar roupa porque se identifica como tostadeira; a lareira elétrica a lamuriar-se porque não encontra propósito na vida; a playstation branca a recusar-se a ser jogada por comandos pretos; a fotocopiadora a organizar atentados juntamente com grupos de aquecedores kamikaze contra os eletrodomésticos com ecrã, reivindicando que os ecrãs são criação do Diabo eletrónico e não devem existir segundo o Deus Eletros.

É isto que queremos? Tornar o mundo ainda mais devastador? Sinceramente, acho que faz mais sentido o contrário, objetificar humanos. Não me estou a referir àquilo que muitos homens e mulheres fazem no dia-a-dia a outras pessoas. Refiro-me a literalmente objetificar humanos.

Cada humano escolheria um objeto para se tornar e faria-se a transformação. Transformação essa irreversível. A partir do momento que o humano se torna no objeto escolhido deixa de ter pensamentos, moral, opiniões, tudo. Simplesmente é. Ainda não sei em que objeto me tornaria, mas, enquanto pessoa que adora fazer nada, parece-me muito prazeroso. 

Apesar de tudo, hoje em dia existem várias pessoas que acham que os objetos já têm personalidades. Quantas vezes ouvi pessoas a dizer que os telemóveis são malvados, a televisão é mentirosa, o plástico está a matar o planeta, os fidget spinners são estúpidos. No entanto, os telemóveis, a televisão , o plástico e os fidget spinners são só objetos. Não pensam, não agem, apenas são. 

Já o ser humano esse sim é malvado, mentiroso, estúpido e está a matar o planeta. Esse sim utiliza objetos para alcançar os seus objetivos mais depravados, tais como evitar o aborrecimento através da rotação de um mini triângulo entre o polegar e o indicador.

Não é o telemóvel que tem uma personalidade triste e gera ódio nas redes sociais. Ainda assim, há quem ache o contrário. Acha que, por exemplo, o Rui está a ver um vídeo no youtube de uma miúda a cantar, e, subtilmente, o telemóvel vira-se para ele e diz: “Faz um comentário a dizer que ela tem cara de omelete caída no chão e que a voz dela soa pior que a tua pila a bater numa frigideira”. E o Rui, coitadinho, possuído pelo objeto maligno, não tem outra opção senão publicar o comentário arrasador.

Entretanto, nisto, acho que já descobri em que objeto me transformaria. Numa caneta. Para poder ser usado para escrever frases inspiradoras como “a voz dela soa pior que a tua pila a bater numa frigideira”.

A segunda opção seria numa coluna que fala. Para poder ouvir a minha mãe dizer que eu dou imenso jeito.

Estrague o dia a mais alguém.
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