Irrelevância Crónica

16/11/2024

Uma vida crustácea

Lembro-me de quando era mais novo, na praia, ir à caça de caranguejos com o meu tio João. Antes que algum (e)leitor do PAN fique exaltado, a palavra “caça” não é a mais indicada era pegar e largar os bichos. O meu tio apanhava os caranguejos com a mão e eu ficava a ver. Nunca tive coragem de os apanhar. Tinha medo de receber beliscões daquelas pinças e acabar com cancro. Estou a falar a sério. Toda a gente sabe que beliscões dá cancro. É senso comum. Como o emagrecimento através de copos de água com limão.

  Na caça ao caranguejo, tal como na vida, existem dois tipos de pessoas: os que têm coragem para pegar no caranguejo e fazer o que querem com ele, e os cobardes que ficam a observar os corajosos fazê-lo. Eu faço parte dos cobardes. Nasci com um medo interior que não me permite ser mais que isso. O meu amigo Pedro saltou de um avião aos 16 anos, eu tenho 24 e nunca fui sozinho ao médico.

Sempre tive medo de fazer e dizer o que quero. Fui cobarde para partilhar o que sentia em relações passadas; fui cobarde na perseguição dos meus sonhos; fui cobarde para pedir mais Ketchup à senhora do McDonald`s. 

  Contudo, ser cobarde tem as suas vantagens. Os cobardes muitas vezes são heróis. É muito comum, no clímax de filmes e séries, os cobardes acabarem por se redimir através de um sacrifício heroico. É assim que eu quero morrer, num ato de coragem. Para as pessoas pensarem “Meus Deus, que homem corajoso. De certeza que apanhava caranguejos com as mãos”. Quando, na verdade, tenho medo de comer iogurtes fora do prazo.

  Outra coisa boa dos cobardes: a humildade. Os corajosos são demasiado confiantes de si próprios. Nós cobardes temos noção dos perigos, não os desrespeitamos com bravura. Conheço pessoas corajosas que levaram facadas graças ao excesso de confiança. A mim o pior que me aconteceu por cobardia foi levar um recado na caderneta por falta de participação. O que me leva a mais uma vantagem: os cobardes têm uma esperança média de vida superior. Enquanto o cobarde foge da morte, o corajoso ri na cara dela. Não admira que ela tenha preferência. 

  Há um verso numa das canções de Valete que questiona o seguinte: «O que é mais corajoso? / o suicidio ou a sobrevivência?». Arrisco-me a dizer que é o suicidio. Um cobarde gosta do conhecido, do conforto, da previsibilidade. O suicídio não é nenhuma dessas coisas. O suicídio é o maior tiro no escuro da humanidade. Só um corajoso é capaz de tal ato. Um bom cobarde vai pensar demasiado sobre o que pode correr mal e desistir da ideia. Eu confesso que penso muito sobre a morte. Não que tenha intenções de pôr fim à  minha vida sou um cobarde, não se esqueça. Porém, a incerteza sobre o que vem depois da morte deixa-me muito desconfortável e dou por mim a analisar possíveis cenários. 

O primeiro pensamento que me ocorre sempre é: “E se eu for para um sítio onde vou ter de falar com pessoas?”. E a partir daí começa a descambar “E se me pedirem para fazer um casting para entrar no paraíso? E se eu acordar dentro de uma montanha-russa sem fim? E se eu acabar preso numa padaria cheia de caranguejos? E se eu for parar ao inferno e acabar a dividir casa com o Hitler? E se não existirem os cereais que eu gosto?”. 

 Enfim… O meu corajoso tio João foi um desses que decidiu desbravar a morte. Sempre que penso nele, fico com medo de onde possa estar. No entanto, rapidamente me acalmo, pois tenho a certeza que se estiver preso numa padaria cheia de caranguejos, já os apanhou a todos com as mãos.

Estrague o dia a mais alguém.
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