23/11/2024
Águas passadas
Era uma vez uma gota de água. A gota de água cresceu com pressa de chegar ao oceano. Da nascente até à foz foi sempre pregada a fundo, sem parar por um segundo. Sabia que o seu destino era o oceano. Ao chegar, deparou-se com milhões de gotas de água sem rumo, sem direção, como se não tivessem sítio para onde ir. A gota de água ficou confusa. Não eram estas as expectativas que tinha. Sem saber o que fazer, avistou uma outra gota mais sábia — daquelas com uma longa barba branca — e perguntou-lhe:
– Porque é que as gotas de água estão aqui à deriva? Não têm sítio para onde correr?
– Já estão no oceano. Para onde haveriam de continuar a correr?
– Sei lá… Mas então, o oceano é só isto? Milhões de gotas a vaguear sem direção? Qual é o objetivo?
– Nenhum. Um dia acordas na nascente e sonhas em chegar ao oceano como todas as outras gotas de água. Começas a descer o leito, cheio de pressa de aqui chegar, sem parar, nem para contemplar uma pedra ou cumprimentar um sapo. Quando chegas, apercebes-te que o teu objetivo de vida foi alcançado e só te resta permanecer na ondulação com as outras gotas, até ao dia da tua evaporação.
– Mas sem objetivo, qual é o propósito? É suposto passar o resto da minha vida à espera de evaporar?
– Podes sempre praticar o coito ou rir-te das gotas que se misturam com sémen de baleia. Ajuda a passar o tempo.
– Não há outra opção?
– Há: Desfrutar da liberdade… ou, então, evaporar-te.
– O que acontece quando te evaporas?
– Ninguém sabe. Algumas gotas acreditam que te juntas com o Sol e vives feliz para sempre. Outras acreditam que voltas à vida em forma de chuva, e depois há outras, como eu, que acreditam que desapareces para sempre, deixas de existir.
– Se acreditas nisso, porque é que não te evaporas? Mais vale deixar de existir do que existir sem propósito.
– Pelo contrário… Sem propósito consegues aproveitar verdadeiramente a vida. Observar a Natureza: os animais deslumbrantes, a sombra das algas, o nascer do sol; amar outras gotas de água, viajar pelas correntes, perderes-te em conversas com sapos, sorrir para as pedras, explorar os recifes. As gotas com propósito não aproveitam nada. Têm tanta pressa de alcançar os seus objetivos e realizar os seus sonhos que acabam por se esquecer de viver.
– Como é que eu faço isso? Como é que eu começo a viver?
– Já foste cuspido pelo espiráculo de um golfinho?
Na semana passada faltei duas vezes ao trabalho. Como não tinha nenhuma justificação válida, escrevi este conto e enviei-o à minha chefe na esperança dela compreender que a vida é mais do que picar o ponto e objetivos trimestrais, e não me despedir. No dia seguinte, cheguei ao trabalho e descobri, através do patrão, que a minha chefe se tinha demitido. Pelos vistos, algo fê-la mudar de perspetiva de vida e voltar para Coimbra onde vive a família. Devido à falta de pessoal, o patrão promoveu-me a chefe. Objetivo cumprido.