Irrelevância Crónica

30/11/2024

Lavagem no tempo

Não é preciso ser um Albert Einstein para compreender que o tempo é relativo. Eu tomo conta desse fenómeno todos os dias ao sair do duche. É facto que, sob o despejar exasperante de água aquecida no corpo despido, o tempo passa mais devagar. 

Dentro da banheira tenho tempo para divagar sobre ideias parvas, pôr champô no cabelo, envergonhar-me com recordações embaraçosas, afogar um mosquito que achou correto observar-me da quina da divisão, cantar sem medo de ser ouvido, encher a boca de água e cuspir, urinar, esquecer-me se pus champô, voltar a pôr champô, concluir que pus duas vezes champô, massajar-me com gel de banho, realizar que estou a ficar cada vez mais gordo, gritar porque a água ficou fria, gritar para a minha mãe “desligar a água” — “desligar a água”, como quem desliga uma porta ou fecha a luz  — , aperceber-me de que não esfrego o meu corpo abaixo dos joelhos há anos, continuar sem esfregar as canelas como se não soubesse, notar que perdi noção do tempo, ficar entusiasmado porque tive uma ideia para um texto sobre perder noção do tempo e, finalmente, fechar a torneira e caminhar cautelosamente pelo nevoeiro até encontrar a minha toalha. 

  O leitor depois desta vasta e detalhada enumeração de coisas que eu faço no duche  — como pode ver, o tempo não é a única coisa de que perco a noção  —  deve estar a pensar que eu demoro horas no banho. Eu próprio quando saio da zona balnear, fico com a sensação de que passou um mês, no entanto, a valer passaram, no máximo, três semanas.

O duche é o armário do filme ‘As Crónicas de Nárnia’ da vida real, na medida em que o tempo estagna enquanto lá permanecemos. A única diferença é que o armário é uma passagem para o reino de Nárnia e o duche é uma passagem do rego por água.  

  Vejo o duche quente como uma atividade muito valiosa, demasiado valiosa até. Dentro da banheira é um dos poucos momentos durante o dia em que estou a sós com os meus pensamentos. No meio de tantas tecnologias que me distraem constantemente, perdi o pensar. Às vezes, aquele tempo em que estou debaixo do chuveiro, a lavar as virilhas e as nádegas, é o único, durante o dia, em que estou a ter ideias e a estimular a criatividade.

  John Cleese, num livro que escreveu sobre a criatividade, disse que “O maior inimigo da criatividade é a interrupção”. Bem que podia ter escrito que o maior aliado da criatividade é o duche. Durante o duche não tenho o telemóvel a distrair-me com notificações ou a televisão a olhar para mim com ecrã de quem quer ser ligada. Não tenho a minha mãe a falar ao telemóvel ou a perguntar como foi o dia. Não tenho os latidos do cão do vizinho a sinfonizar ao meu ouvido. Não tenho o silêncio a julgar-me cada pensamento. Tenho o espaço ideal. O som constante da água quente a sair do chuveiro. As paredes vazias com espaço para as ideias. A automaticidade dos movimentos que me permite explorar pensamentos. É o local perfeito. A Sala do Tempo do ‘Dragon Ball’ onde em vez de aperfeiçoar fusões, fundem-se conceções.

Estou a soar como um guru dos banhos quentes. Desculpe, mas alguém tem de o fazer. A preconização do “Cold Shower” continua a apequenar o agradável banho de água escaldada e eu não o posso admitir. Principalmente porque o “Cold Shower” não o permite viajar no tempo. 

Quando você entra numa banheira e abre a torneira na água fria, está consciente de cada segundo que está a passar debaixo do aguaceiro gélido. As coisas são feitas a correr, só pensa no sacrifício que está a fazer e deseja sair dali o mais depressa possível. Faz lembrar um jantar em casa dos seus sogros — Dos seus, que os meus são tão bons que só apetece ficar a morar lá em casa.

Pegando noutro exemplo, menos prejudicial para os progenitores do seu cônjuge, o banho de água fria é uma aula de alongamentos onde o tempo é rígido e cada segundo é doloroso, enquanto o banho de água quente é uma massagem relaxante que o faz viajar pelo passado, presente e futuro. 

  Não sei se notou ao longo do texto, mas sou maior adepto do duche de água quente. Todavia, reconheço que é preciso ter cuidado com ele. Relaxar em excesso, prende-o ao passado e deixa-o a ansiar o futuro. Torna-o numa pessoa sem noção de presença e arrisca-se a acabar perdido no tempo. Tal como a esfregação do corpo abaixo dos joelhos.

Estrague o dia a mais alguém.
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