Irrelevância Crónica

07/12/2024

Salvador Escritor

Estive fora de Lisboa por umas semanas e não pude deixar de reparar nos nomes de lojas, restaurantes, consultórios, entre outros estabelecimentos comerciais, fora do centro do país. Enquanto nós em Lisboa gostamos de ser misteriosos e criativos no que toca ao nome que damos às nossas marcas, em pequenas vilas e aldeias eles desenvolveram um sistema bastante mais objetivo e conciso. Passa por nomear todos os estabelecimentos com o nome do proprietário mais o serviço que é prestado naquele local. 

Parece-me uma ideia muito mais inteligente que a criação de uma marca com um nome cool e um logotipo elaborado. A verdade é que me gera muito mais confiança ir cortar o cabelo ao “Vitor Barbeiro” do que ao “Barberz stylers Hairs artist&shit”. Assim como sinto muito mais empatia em ir à “Fernando Fisioterapeuta” do que à “Quebra-Nós Clinic”. 

Para além disso, caso seja novato na zona é muito mais fácil identificar locais e os seus serviços com nomes como Teresa Esteticista, Rui Bar e Restaurante, Américo Roupa desportiva, Shiang Li loja do chinês. Não há que enganar. Já em cidades como Lisboa, muitas vezes,  é uma labuta para perceber de que é que se tratam certos estabelecimentos. 

 Lojas como a Natura, que pelo nome sempre associei a coisas naturais e flores, vende roupa e agendas. Ou como a Paez que ao analisar o nome dá a ideia de que vende pães sofisticados, talvez argentinos ou mexicanos. Vai se a ver e vende calçado. Ou um sítio chamado Pleno, por onde passei e pensei “Ui, mas estes marmanjos abriram uma loja só para vender garrafas de água com sabores?”. Fui a ver, era um restaurante japonês. Está mal, devia chamar-se Francisco Restaurante japonês apanhei-o, pensou que eu ia usar um nome japonês como Hiroshi Akira ou algum clichê semelhante. Sinceramente leitor, fica-lhe mal o preconceito.

  Outra diferença que se sente muito é a hospitalidade. Há umas semanas, fui à Paula Mercearia, que fica perto de minha casa pelos vistos se procurar bem ainda existem alguns destes locais na cidade —,  fui recebido com um sorriso de orelha a orelha, com oferta de ajuda durante toda a minha estadia e ainda me foi oferecido um saco com salsa fresca que eu precisava para cozinhar umas amêijoas. Além disso, criei uma relação com a senhora Paula. Sei que abriu aquela mercearia há dez anos, que tem dois filhos que trabalham fora e que é maluca por caracóis, tanto os que se comem como os que eu tenho na cabeça. No dia seguinte voltei lá e conversámos mais um pouco. Criou-se ali uma amizade, ou pelo menos um gosto mútuo.

 Quando vou ao Pingo Doce, Continente ou uma dessas grandes cadeias, isso não acontece. São dezenas as pessoas que lá trabalham e centenas as que estão lá a comprar, ninguém olha para ninguém, cada um fixo na lista que fez em casa, de forma a que nada fique esquecido. Pontualmente tira-se uma dúvida a um dos colaboradores, mas é respondida de forma breve com um “É no terceiro corredor ao lado das fraldas para idosos” ou um “Não, não temos”. A simpatia é quase nula, resumindo-se aos cumprimentos básicos como o “Bom dia”, “Boa tarde” e “obrigado”, tanto da parte dos colaboradores como dos clientes. Não há tempo para parar e falar sobre o jogo de ontem ou a vida do outro porque a fila está a crescer e ninguém quer perder um segundo. As frases dos colaboradores já estão mecanizadas de tanto terem sido repetidas. “Tem cartão poupa mais?”, “Vai desejar saco?”, “Contribuinte na fatura?”. São humanos robotizados, sem emoção. A maioria detesta o trabalho, só pensa na hora de saída. Quem entra sai de lá com o mesmo estado de espírito com que entrou. Às vezes pior, quando se descobre que as bolachas de que gostamos foram descontinuadas. Cada vez mais se dá prioridade à eficiência em vez da simpatia. Não há carinho pelo próximo. Eu, para ser honesto, sou vencido à simpatia, é o que me faz querer voltar a um determinado estabelecimento.

Dito isto, deixo o texto por aqui que ainda tenho de passar no Pingo Doce. Hipócrita, eu sei. Mas os estabelecimentos onde rege a simpatia são caros e têm pouca variedade. Como é o caso do da senhora Paula, que bem podia chamar-se Paula Mercearia de Luxo.

Estrague o dia a mais alguém.
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