Irrelevância Crónica

14/12/2024

Zanzibar

Vejo várias medidas a serem passadas sempre que há um novo governo. Mas nunca se tratam das medidas de que precisamos. Estou a referir-me às medidas aplicáveis aos jantares de grupo de amigos.

 Ainda ontem, estive num jantar onde o descontrolo reinou. Estive uma hora e meia numa conversa cujo tema foi uma viagem a Zanzibar, da qual eu não participei. Há algum sentido nisto? Não deveria existir uma medida que limitasse este tempo para 15 minutos, no máximo? Não sou do extremo que é a favor da invalidação da conversa sobre temas que não aglomeram todos os participantes do jantar, mas acho que a criação de um limite de tempo por jantar para essas conversas, não é pedir muito. 

 Eu sei que, para quem foi viajar, é muito divertido relembrar os momentos agradáveis que foram passados, mas para os restantes, não é nada divertido ficar a ver navios. Quando digo ver navios, digo-o literalmente. A viagem a Zanzibar foi feita num cruzeiro e os viajantes puseram  a rodar um telemóvel com inúmeras fotografias do navio. 

Pior do que a primeira conversa sobre a excursão, é o retorno do tema. Ou seja, quando o tema da viagem já encerrou e, de repente, alguém está a contar que comeu um prato de polvo ótimo num restaurante em Lisboa, e pimba!  Há um dos marinheiros — normalmente, aquele que tem puxado o tema a noite toda — que diz algo do género “Em Zanzibar é que se comia bom polvo! Lembram-se daquele restaurante a que fomos, que era em cima de uma onda do mar congelada artificialmente e que para lá chegarmos tivemos de deslizar no gelo às costas de três pinguins? O polvo nesse restaurante era excelente.” — como pode reparar pela história dos pinguins e das ondas congeladas, eu não faço ideia do que se passa em Zanzibar. É o problema de ter avançado trinta níveis do Candy Crush enquanto os meus amigos descreviam a viagem. 

O leitor se calhar pode achar que uma medida passada pelo governo é algo excessivo. Mas, não é. A prova é que qualquer tentativa que faça para demonstrar desconforto perante uma conversa sobre viagens alheias, é sempre anulada por um “Se tivesses vindo connosco…”. Pois, mas não pude ir a Zanzibar. Não foi que não quisesse. Não pude. Não tenho dinheiro para férias onde deslizar nas costas de pinguins em ondas artificialmente congeladas é uma das atividades. O meu dinheiro, no máximo, destina-se a férias onde deslizo pelas folhas de um livro assim-assim em cima das areias ardentes da Costa Vicentina. 

É que não há nada pior do que não perceber referências em grupos de amigos, e Zanzibar trouxe várias referências. Enquanto eles foram puxando referência atrás de referência e soltando gargalhadas — a meu ver excessivas — ao longo do jantar, eu só tinha uma coisa a referir: a minha insatisfação. 

 Não tem nada haver com FOMO (Fear Of Missing Out), como a minha geração gosta de dizer. Até porque para mim o melhor sítio para se estar é onde se está — a não ser que se esteja numa mesa a ouvir conversas sobre viagens a Zanzibar.

A insatisfação que sinto é outra. É uma insatisfação sentida por muitos e por muitas. É uma insatisfação que tem vindo a aumentar a cada jantar de amigos. É uma insatisfação que me torna moralmente pior pessoa, pois urge-me o desejo de lhe tirar a vida. Sim, é mesmo essa insatisfação que o leitor está a pensar: A insatisfação de ter um governo miserável que continua a fechar os olhos a uma das maiores crises do século XXI: A crise das conversas de viajantes em jantares de grupos de amigos. 

Não faz qualquer sentido, no presente em que vivemos, continuar a existir uma instabilidade destas em Portugal. Por isso faço aqui o apelo a todo e qualquer leitor que se sinta prejudicado nesta matéria: Não ceda a mais jantares de grupo de amigos.

 Diga que não vai, que não pode. Cozinhe, encomende pela Ubereats, faça jejum intermitente, não interessa. O que interessa é não ceder. A greve dos jantares de amigos vai se fazer sentir no estado de espírito dos trabalhadores, que irão baixar a produtividade, o que, por sua vez, trará problemas significativos para o estado do país. A greve só deverá terminar quando uma das duas medidas seguintes for aplicada pelo governo: A imposição de um limite de tempo, de máximo 15 minutos, para conversas não gerais nos jantares de grupo de amigos. Ou, a oferta de uma viagem a Zanzibar, com tudo incluído, ao líder do sindicato dos jantares de grupo de amigos – que, por mera coincidência, sou eu –  para ele poder participar nas conversas e perceber as referências a Zanzibar quando vai jantar com os seus amigos. A felicidade da população está nas suas mãos, senhor primeiro-ministro Luís Montenegro.

Estrague o dia a mais alguém.
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