Irrelevância Crónica

26/10/2024

Ensinamentos dos trava-línguas

«O rato roeu a rolha da garrafa do rei da Rússia». Consegue ler rápido sem se enganar na frase anterior? Então e esta: «um tigre, dois tigres, três tigres». Impossível, certo? 

Os trava-línguas são dos divertimentos mais subvalorizados da nossa cultura. Tentar dizer corretamente um trava-línguas não só é engraçado como educativo. Eu aprendi comédia com os trava-línguas. Aprendi que não faz mal rir dos nossos fracassos e dos fracassos dos outros, pois, no fim, toda a gente diz “Tês Trigues”. 

   Outro propósito dos trava-línguas é manter o nosso ego equilibrado. Acabou de receber três prémios Nobel, beijou o amor da sua vida e deu um abraço ao seu melhor amigo, João Baião? Bom para si! Consegue dizer “As solas dos sapatos” muito rápido com a pronúncia correta? Não? Então continua a ser um falhado como eu. 

Os trava-línguas têm um papel crucial em reduzir-nos à nossa insignificância. Deus foi muito inteligente em ter criado estas artimanhas para manter os seres humanos humildes. Aliás, aposto que Jesus Cristo nunca conseguiu dizer “Um tigre, dois tigres, três tigres” muito rápido sem se enganar. Caso contrário estaríamos a par do milagre da multiplicação dos tigres.

  Os trava-línguas não me ensinaram apenas comédia e humildade. Ensinaram-me a contar uma história com coerência e sentido. Refletindo sobre o trava-línguas «O rato roeu a rolha da garrafa do rei da Rússia», reparei que este não faz nenhum sentido. Porque é que o rato haveria de roer uma rolha de garrafa? Ele tinha ansiedade, é isso?

Além disso, se a  garrafa era do rei da Rússia, não deveria haver mais comida à volta? Comida essa muito mais apetecível a um rato que luta pela sobrevivência? Estamos a falar de um rei, não é verdade? Banquetes com mesas larguissimas, cheias de comida, cozinhas enormes… e o rato vai roer a rolha de uma garrafa? Porquê? Ainda para mais a Rússia não teve reis, teve Grão-príncipes e Czares. Quem é que estão a tentar enganar?  

  Porém, pus-me a pensar e há uma maneira desta história fazer sentido e ser coerente: “rei da Rússia” é, na verdade, a alcunha de um homem russo que vive numa barraca em Aljustrel. Este descobriu que tinha um rato a vaguear em sua casa e como não tinha dinheiro para pagar uma desinfestação, utilizou uma rolha de garrafa molhada em queijo derretido misturado com veneno para tentar caçar o rato. Durante a noite, o rato roeu a rolha da garrafa do rei da Rússia e morreu. 

  Um fim inglório para o rato, eu sei, mas é o único que faz sentido. A culpa não é minha, eu só procurei dar sentido à história. A culpa é de quem criou o trava-línguas que nunca pensou em continuar o franchising. Caso contrário, existiria uma sequela chamada “O rato reparou na ratoeira do Rei da Rússia e ripostou rancorosamente”, fechando a trilogia com “A revolta do rato e raiva do Rei da Rússia resulta em romance”.

Estrague o dia a mais alguém.
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