Irrelevância Crónica

19/10/2024

Parabéns a bebé

Acordei com uns tios meus a darem os parabéns a um bebé no grupo de whatsapp de família. 

Não compreendo. Porque é que haveríamos de desejar os parabéns aos bebés no whatsapp? Para já, os bebés não têm whatsapp — pelo menos os bebés que eu conheço —, e ainda bem. Já imaginou se os bebés tivessem whatsapp?  Stickers do Pocoyo, áudios a chorar às 4 da manhã, nudes no penico…

Aliás, porque é que haveríamos de desejar os parabéns aos bebés, no geral? Eles são incrivelmente estúpidos. Não faz sentido nenhum. Desejar os parabéns a um bebé produz o mesmo efeito de desejar um bom ano a um aquecedor a gás. 

Quero dizer, o que é que estes tios acham que vai acontecer? Acham que a mãe do Joãozinho de um ano lê a mensagem e depois passa recado ao bebé? Tipo “Joãozinho, o tio Ricardo e a tia Maria mandaram-te os parabéns! Depois não te esqueças de agradecer quando acabares de bolsar no ombro da mãe.” 

Além disso, os bebés não têm identidade. Ou seja, eu não sei em quem é que os bebés se vão tornar. E se o meu sobrinho bebé se tornar no próximo Hitler? Vou arriscar dar-lhe os parabéns por escrito no whatsapp? É que eu já sei como é que a internet funciona, mal ele se torne no fascista juvenil que está destinado a ser, aparece a circular um print da minha mensagem para o sacana — «Parabéns, pequeno Henrique!!! Que seja o primeiro de muitos anos cheios de conquistas gloriosas. Nunca deixes que te digam que os teus sonhos estão errados. Tens o mundo à tua espera! Um abraço do tio preferido!» — , quando der por mim estou a ser acusado no twitter de ter incitado à Terceira Guerra Mundial. 

Os bebés não precisam de receber os parabéns. Os aniversários foram a maneira mais fácil que a sociedade arranjou para toda a gente se sentir especial uma vez por ano e a vida valer a pena. Os bebés já têm toda essa atenção e protagonismo todos os dias das suas recém-vidas. 

Todos os dias é sobre eles. Pessoas a comentar o quão grande ele está, o quão rechonchudo é, o quão se parece com pai… a querer pegar neles, dar-lhes comida, embalá-los, brincar com eles, fazê-los rir, fazê-los parar de chorar. Tudo gira à volta deles. É insuportável.

Eu também sei chorar alto, rir alto, sujar-me a comer, borrar as calças, atirar coisas para o chão, adormecer em todo o lado, chuchar a chucha, chuchar o peito de mulheres e bolsar no ombro da minha mãe. Mas quando um bebé o faz é querido e inocente; e quando sou eu, as pessoas reviram os olhos e chamam-me imaturo ou  nomes.

Não percebo. Eu sou muito mais interessante que um bebé insipiente. Eu consigo abrir uma garrafa de cerveja com os dentes e escrevo textos com humor online. Porque é que os meus tios haveriam de dar os parabéns a um bebé sem expectativas e não me dar os parabéns pelos parágrafos hilariantes que tenho publicado? Bastava uma mensagem diária a dizer “És tão engraçado, Salvador! Adoro-te”, nada demais.

Eu não estou a embirrar para chamar a atenção, não preciso disso. Só sinto que há pessoas que não têm noção do quão incrível sou e deviam falar mais sobre isso em vez de se focarem em dar os parabéns a bebés desmerecedores chamados Joãozinho. 

Estrague o dia a mais alguém.
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