Irrelevância Crónica

12/10/2024

Deus no céu, Algoritmo na Terra

Lembra-se quando o algoritmo era só uma sequência finita de instruções não ambíguas utilizadas para resolver um problema ou fazer um cálculo? Também eu. Agora é uma espécie de Deus numérico que dita as nossas vidas.

 Os professores de matemática nunca estiveram tão felizes. Finalmente, a matemática teve impacto na vida dos jovens. 

Se calhar “teve impacto” é um pouco redutor, tendo em conta a dimensão deste Messias. O algoritmo sabe mais sobre mim do que eu próprio. É assustador. Já não precisamos de pesquisar ou explorar por coisas de que gostamos na internet. Elas vêm ter connosco. É absurdo, e ainda pode piorar. 

Creio que mais cedo ou mais tarde, ao entrar no Youtube, este exibirá automaticamente o vídeo que você quer ver. O Tinder deixará de lado o “swipe” e passará a mostrar-lhe apenas a pessoa ideal para si. E se por acaso abrir o Pornhub irá, inconscientemente, ejacular de rajada. Isto graças ao sacana do algoritmo que lhe criou uma compilação de vídeos com todos os seus fetiches alguns desconhecidos até por si. A seleção natural entrará, ironicamente, em vias de extinção, enquanto a ignorância de obter a máxima satisfação prevalecerá.

  Perdoe-me pela imagem visual que possa ter criado ao ler o parágrafo anterior. Contudo, poderia ter sido pior… Imagine o Donald Trump a fazer amor com uma cabra montesa, enquanto tem duas velhinhas nuas a usar um chapéu à Robin dos Bosques, a atirar-lhe cinzas de lareira e serpentinas para cima do corpo. Muito pior, certo? Vê, já nem se lembra da ejaculação de rajada.

  Se ainda estiver comigo, ao que parece, o algoritmo esse ser incrível que nos fornece prazer através de estímulos visuais e auditivos não é flor que se cheire, tanto literal como metaforicamente. Diz-se que esse tal algoritmo é altamente aditivo e mata a criatividade de quem cede aos seus estímulos.

 Desde já, agradeço ao Senhor algoritmo por só ter aparecido agora. Já pensou no impacto que teria tido na história e cultura mundial se a Divindade tivesse aparecido há 600 anos? O Da Vinci, em vez de ter pintado a Mona Lisa, teria passado o tempo a ver Reels para enviar ao Michelangelo. O Michael Jackson, em vez de ter criado músicas icónicas como “Billie Jean” ou “Thriller”, teria investido o seu talento em fazer dancinhas para o TikTok. E o Hitler, em vez de ter tentado conquistar o mundo através da 2ª Guerra Mundial, teria tentado conquistar o mundo através do Marketing Digital.

  Mas o que me deixa mais chateado é o fácil acesso à felicidade. Antigamente, para me sentir feliz fora de casa, tinha de ir andar de bicicleta, jogar às escondidas ou andar à luta com o meu primo até um de nós começar a chorar. Hoje basta abrir uma aplicação no telemóvel. Andei eu a ter que inventar coisas para fazer enquanto crescia e, do nada, chega aqui esta geração alpha e basta-lhes mexer o polegar enquanto mantêm os olhos abertos para serem felizes? Parece-me injusto.

 Ainda por cima o que lhes está a proporcionar essa felicidade é um algoritmo. No meu tempo acabei de me aperceber que me transformei no meu avô , tudo o que envolvia números era a maior causa de infelicidade de qualquer criança. Eu preferia passar três horas a olhar para uma parede a ter que fazer uma conta de dividir. Hoje, já ninguém larga o algoritmo.

Aliás, aposto que o leitor, neste momento, está a ler isto enquanto, de soslaio, vê um Reel da Mafalda Creative ou de um cão a ser palerma, ou de um clip do Watch.TM ou de um POV de um eucalipto ou de uma mulher a fazer uma dança sexy ou de um bit do Ricky Gervais ou de um blooper do The Office ou de uma avó a cantar no carro ou de um golo do Ronaldo ou de um… Ups. Perdão. Distraí-me no scroll.

 Para concluir, o algoritmo não trouxe só divindade e injustiça: trouxe também humilhação, pois eu, enquanto pessoa humilde que reconhece os seus erros, a seguir ainda vou ter de escrever um email cujo assunto é “Desculpe ‘stora Célia, tinha razão.”

Estrague o dia a mais alguém.
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