05/10/2024
Ato de omissão
A sinceridade e falta dela é um tema que me apoquenta muito. Cresci com adultos a ensinarem-me que dizer a verdade é bom e que mentir é feio, ao mesmo tempo que me censuraram por dizer certas palavras e ter determinados comportamentos. É um paradoxo que deixa a minha mente a contorcer-se de confusão.
Como é que é suposto eu ser verdadeiro se não me posso expressar livremente? Devo, depois de me desequilibrar, cair dois lances de escadas e partir o braço, gritar: “Carambolas!” ou “Chiça penico!”? Sinto que a situação pede algo mais drástico, algo como um “Merda caralho foda-se!” ou mesmo um “Filha da puta da escada!”.
Não percebo. Porque é que haveriam de existir palavras cuja proferição é condenável? Os Dez Mandamentos não diziam nada sobre vocabulário. E porque é que só o vocabulário é que sofre censura? Os algarismos sabem de alguma coisa oculta às palavras? Os algarismos a partir do 30 parecem-me bastante censuráveis, tendo em conta a tristeza em formato de velas que trazem a inúmeras pessoas todos os anos.
Eu sei que é um disparate, mas o contexto em que foi dita a palavra não deveria importar mais do que a palavra em si? Em vez do “Isso não se diz!” clássico, não seria melhor optar por um mais honesto “Isso não se diz, neste ambiente/contexto/situação!”?
Sinceramente, deixa-me desconcertado, quando algumas pessoas me questionam sobre o meu vocabulário. Interrogam-me se não será melhor utilizar “Não gosto dele” em vez de “Odeio esse cabrão”. Não sei se é melhor, mas é definitivamente diferente.
Existe uma grande diferença entre dizer as frases “Não gosto dele” e “Odeio esse cabrão”. Não em relação ao que é correto ou errado, mas em relação à sinceridade. Se estiverem a falar de um homem que matou a minha família, odeio esse cabrão, claro. Já se estiverem a falar de um homem que me passou uma multa de estacionamento uma vez, odeio esse cabrão e espero que ele apodreça no Inferno.
Em contraste ao que foi dito acima, toda a gente diz que ser verdadeiro é uma ótima qualidade. Eu discordo, até porque já fiz o teste.
No outro dia, fui a um restaurante e pedi mousse de chocolate para a sobremesa. Depois de uma colherada na mousse, percebi logo que se tratava de uma mistela intragável. Pousei a colher e para minha saúde, não ingeri mais daquela substância. A funcionária veio à mesa e reparou na mousse quase intacta:
– Então não gostou da mousse? – perguntou veemente interessada.
Eu aproveitei a situação e respondi com honestidade.
– Odiei.
– A sério? Porquê? – perguntou ela, ainda baralhada com a minha resposta.
– É uma grande merda. Sabe a ramelas.
Pelos vistos tinha sido a mãe da empregada de mesa a fazer a mousse (se é que posso chamar aquilo de mousse), o que não a fez apreciar a minha sinceridade, mas fê-la convidar-me a sair do restaurante.
Sendo assim, não posso dizer a verdade, que magoa e vão chamar-me de insensível, e não posso mentir que é feio e vão chamar-me de aldrabão. Resta-me a omissão. O silêncio.
Perfeito, não é? Sempre quis ser um monge enclausurado e tudo.